NOSSA MEMÓRIA AFETIVA CONTA A HISTÓRIA DA CIDADE.

A narrativa (…) ativa o imaginário, mantém viva a memória, salva as ações humanas do esquecimento e da morte. (André Bueno)

Ainda que aparentemente mergulhado em devaneio nostálgico, justifico esse meu passeio afetivo por uma cidade que mistura o vivido ao imaginado e, ainda que estejamos em outra época, acredito ser possível compartilhar mesmo com aqueles de memória mais recente. Não é preciso ter vivido aquele momento para encantar-se com seus elementos. 

O que me interessa nesse momento, é discutir que elementos despertam o interesse e encantam a imaginação, mantendo em nós a história uma coisa viva. Certamente não são as repetições de datas e nomes dos pontos decorados no grupo escolar. Penso que deve existir um momento ou um ato capaz de atiçar a fantasia e a memória, algo presente no ato de contar a história. Seria a narrativa em si, “o como”, apenas uma questão de talento que pode ser aperfeiçoado, ou algo natural e especial na postura, no timbre da voz, na sensualidade ou afeto contido gesto, não importando “o que” se conte – mentira ou verdade soam com a mesma intensidade. O certo é que há qualquer coisa que vibra e contagia, reverberando e gravado em nossa película interna. Por outro lado, penso que a imaginação é algo em nós guardado, como asas que ao receber um sopro qualquer ganham impulso e podem fazer voar.

Penso que a lembrança desse fato pode remeter diretamente ao papel assumido pelas narrativas na construção e permanência de mitos e heróis. Ciclicamente eles necessitam ser rememorados, remontados, ganham corpo e vontade, dando sentido à existência, sustentando e fortalecendo a cultura que os gerou. Caso contrário serão apagados e esquecidos.

(Baseado no texto do jornalista Otoni Moreira Mesquita)

A BANDEIRA

Resultado da Lei ou da tradição, a Bandeira é o símbolo representativo de um grupo: seja um Estado, uma região, uma cidade, uma empresa, uma sociedade ou simplesmente um individuo.
Ligada a princípios básicos como a simplicidade, a simbologia e a distintividade, a Bandeira é um elemento de nobreza de entre todas as simbologias e representações.

A Bandeira de Cruz das Almas é formada de um retângulo com fundo na cor amarelo ouro, sobreposta com uma cruz firmada de preto, acompanhada de quatro enxadas; em que o amarelo ouro é alusivo às riquezas das suas terras férteis e as enxadas simbolizam a atividade agrícola aqui muito bem desenvolvida. O conjunto da obra, portanto, é uma referência ao nome da cidade – Cruz das Almas.

Instituída por decreto pelo então prefeito Dr. Fernando Carvalho de Araújo, em 29 de julho de 1971.

ANDRÉ PEIXOTO, O SENHOR DOS CORDÉIS.

André Antônio Peixoto nasceu na localidade de Araçá, zona rural de Cruz das Almas, no dia 30 de novembro de 1908. Filho de Clementina Romualda de Souza e de Romão Antônio Peixoto. Morou na roça até os quinze anos de idade, trabalhando como agricultor. Depois, em 1923, foi trabalhar em Salvador, retornando para Cruz das Almas em 1927. Em 1939 começou a trabalhar na Escola de Agronomia; primeiro na firma de construção, depois como funcionário da EAB, na função de pintor, até aposentar-se em 1983.

Já aposentado, tinha ali próximo ao Mercado Municipal uma barraquinha onde vendia um sabão medicinal que ele próprio fabricava e livros de cordel de vários autores, além dos de sua própria autoria.

O cordelista André Peixoto faleceu em maio de 1994.

(FONTE: O Livro do Centenário, de Alino Matta Santana. )

(IMAGEM: Jornal O Nacionalista, de 5 de abril de 1959 – acervo de Hermes Peixoto Santos Filho)

MESTRES ESPADEIROS

Alguns mestres espadeiros de Cruz das Almas. Ou seja, não simplesmente tocadores de espada, mas eram ou são referência na ciência do fabrico de uma boa espada e na arte de saber tocá-la:

  • Antonio da Paz, pai do vereador Osvaldo da Paz
  • Benedito Vermelho
  • Manhoso
  • Vaúca
  • Gilmar Mascarenhas Souza
  • Zeca Sampaio
  • Agenor Sampaio 
  • Leonidio Sacramento 
  • Abel Gustavo da Silva
  • Totonho Fogueteiro
  • Seo Mundinho da Coplan (além de fabricar, destacava-se na forma elegante com que tocava a espada)
  • Pedro de Seo Né
  • Flávio de Dé, da Sapucaia
  • Vicente de Paula Sampaio (Nego) 
  • Cao de Bob
  • Bila, da praça do Landulfo Alves
  • Cid, motorista da Cofel
  • Massa e Maxixe, irmãos de Vaúca.
  • Santo do Itapicuru
  • Conrado
  • Luciano Queiroz (Lucinho Perú).
  • Paulo de Coscotinho
  • Agenor da Embira
  • Seo Neco, da Rua da Vitória
  • Antônio Mariane, Lico filho de Zé do Alho
  • Sérgio Lopes

BREVE HISTÓRIA RECENTE DAS ESPADAS

O termo espada liga-se, de imediato, ao fato de ser possível a sua manipulação por parte do guerreiro, como é chamado aquele que vai para as batalhas de espada, as guerras de espada. O feixe de luz propiciado pela queima da pólvora, quando é noite, produz uma imagem muito bela e, poder-se-ia dizer, uma imagem ao mesmo tempo temida e fascinante, ainda mais quando associada ao seu efeito sonoro, assemelhando-se a uma espada em movimento, uma arma-brinquedo animada e até mesmo dotada de “personalidade”, melhor dizendo, de mana transmitido da parte do fabricante, do possuidor, ao objeto possuído; senão que mana reivindicado por aquele que, mesmo sem tê-la fabricado, à utiliza em confiança de ser fortalecido por seu poder. Esta, a espada, objeto caracteristicamente significativo em sua ligação com a fantasia que se forma em torno da idéia de nobrezas guerreiras e castas medievais androcêntricas. Aliás, esse medievalismo, um medievalismo ibérico combinado à herança oriental e moura, parece inscrever-se em muito da produção estética sertaneja brasileira, uma certa mitologia do sertão encantado.

As antigas espadas em Cruz das Almas eram feitas de um espécie de bambu chamada taboca (Guadua weberbaweri), utilizando-se cortes do seu tronco em sua estrutura externa, tratava-se de um tipo de madeira de menor espessura e mais frágil que o bambu3 atualmente utilizado nas espadas atuais. Já a utilização de bambus com maior diâmetro, resistência e tamanho dos gomos, é herança da utilização dessas mesmas dimensões no antigo buscapé, também um foguete de rabeio, mas que explode no final. As antigas espadas se assemelhavam muito mais aos chamados coriscos atuais e, pelo que me foi informado, não havia a utilização de limalha de ferro nos mesmos. A utilização predominante do bambu atual, ao que parece começou a ocorrer entre as décadas de 1930-1940, justamente quando a guerra foi se tornando um padrão no processo de desenvolvimento do divertimento. Nesse momento, a administração local passou a combater a utilização de buscapés, uma vez que esses propiciavam um risco intenso ao explodir, inclusive porque, uma das formas de se brincar com a espada, é justamente pela prática da desentoca, ou seja, correndo-se atrás da espada que foi atirada contra si mesmo, e atirando-a de volta ao primeiro tocador, ou apenas pisando na espada. Tal prática, ao que parece, produziu no passado machucados gravíssimos em muitas pessoas por conta justamente da convivência entre toca de espada e buscapé, quando exteriormente idênticos. A partir da década de 40, a estrutura básica da guerra, com a eliminação dos buscapés da brincadeira e com as brincadeiras e chistes característicos entre amigos e familiares nos festejos, estava já praticamente definida, a não ser por três fatores interligados que só poderão se configurar posteriormente: 1) na década de 40 o festejo junino ainda era um festejo basicamente familiar e doméstico, no sentido da família extensa, tendo Cruz das Almas provavelmente não mais que 15.000 habitantes; 2) o fabrico naquele momento ainda era predomínio quase exclusivo de fogueteiros profissionais; 3) por fim, a festa não tinha nenhuma relação com o turismo, estando a cidade relativamente isolada de moradores não nativos, ou pelo menos, moradores que não tenham vivido experiências lúdicas semelhantes em suas cidades de origem, considerando-se a popularidade do São João no interior do nordeste, e mesmo do Brasil até esse momento.

(FONTE: BRINCANDO COM FOGO: ORIGEM E TRANSFORMAÇÕES DA GUERRA DE ESPADAS EM CRUZ DAS ALMAS, Dr. Moacir Carvalho, UnB. in http://www.cult.ufba.br/enecult2009/19327.pdf )

SEMANA DA CULTURA DE 1968

Uma recordação da 1ª Semana da Cultura realizada em Cruz das Almas nos idos de 1968, promovida pelo Grêmio Castro Alves do Colégio Alberto Torres. Note-se a presença da celebridade João Ubaldo Ribeiro, como conferencista, uma façanha conseguida pelo poeta e compadre Luciano Passos, à época cunhado do escritor que despontava como cronista da Tribuna da Bahia. Na oportunidade ele lançou o seu livro “Setembro não tem Sentido”.

(FONTE: Cyro Mascarenhas‎ in Facebook / CRUZ DAS ALMAS – FOTOS ANTIGAS )

DA SÉRIE: “SÃO JOÃO PASSOU POR AQUI?” – 2

Foto: Paulo Galvão Filho / 2019

A senhora Raimunda Silva Souza estava com 74 anos quando nos concedeu um pequeno mas valioso relato oral de suas memórias sobre as festa de São João na cidade. Hoje falecida, nasceu em Cruz das  Almas  em  1936  e  pôde  vivenciar  a  festa  por  um  longo  período.  Como  um  número significativo de mulheres da cidade, trabalhou nos armazéns de fumo desde os seus 14 anos, mãe solteira de filhos gêmeos, após o falecimento de seu marido, criou seus filhos sozinha, com a renda obtida no trabalho nos armazéns de fumo. Segundo as suas memórias, o “[…] São João era o seguinte… alegre, o povo entrava nas casas, pra gente brincar, sair, comer na casa dos vizinhos. Era bandeirola, fita… e ainda bota. Se reunia a rua toda pra botar”.

Essa, aliás, parece  ser ainda  uma  prática  comum  para  muitos  moradores  de  Cruz das Almas: a  forma  de  partilhar a arrumação das ruas, organizar mesas, receber pessoas em casa, socializar comidas e bebidas típicas da época.

(FONTE: Depoimento de dona Raimunda Silva Souza , 74 anos, operária de Armazém de Fumo. Entrevista realizada em Cruz das Almas-BA in  https://docplayer.com.br/81884849-Universidade-do-estado-da-bahia-uneb-departamento-de-ciencias-humanas-campus-v-programa-de-mestrado-em-historia-regional-e-local.html )

FORRÓ NA MORÁ

A partir de 1993, durante a gestão do prefeito Carmelito Barbosa Alves, o “Arraiá do Laranjá” realizado no Sumaúma passou a chamar-se “Forró Na Morá”, um trocadilho de namorar (ato de encontro amoroso) e na moral (comportamento ético). Eis, a seguir, uma retrospectiva da programação e atrações artísticas da festa nos anos de 1993 a 1996:

(FONTE: CARTILHA DO FORRÓ NA MORÁ – IV , uma colaboração de Rei Cônsul)