BREVE HISTÓRIA RECENTE DAS ESPADAS

O termo espada liga-se, de imediato, ao fato de ser possível a sua manipulação por parte do guerreiro, como é chamado aquele que vai para as batalhas de espada, as guerras de espada. O feixe de luz propiciado pela queima da pólvora, quando é noite, produz uma imagem muito bela e, poder-se-ia dizer, uma imagem ao mesmo tempo temida e fascinante, ainda mais quando associada ao seu efeito sonoro, assemelhando-se a uma espada em movimento, uma arma-brinquedo animada e até mesmo dotada de “personalidade”, melhor dizendo, de mana transmitido da parte do fabricante, do possuidor, ao objeto possuído; senão que mana reivindicado por aquele que, mesmo sem tê-la fabricado, à utiliza em confiança de ser fortalecido por seu poder. Esta, a espada, objeto caracteristicamente significativo em sua ligação com a fantasia que se forma em torno da idéia de nobrezas guerreiras e castas medievais androcêntricas. Aliás, esse medievalismo, um medievalismo ibérico combinado à herança oriental e moura, parece inscrever-se em muito da produção estética sertaneja brasileira, uma certa mitologia do sertão encantado.

As antigas espadas em Cruz das Almas eram feitas de um espécie de bambu chamada taboca (Guadua weberbaweri), utilizando-se cortes do seu tronco em sua estrutura externa, tratava-se de um tipo de madeira de menor espessura e mais frágil que o bambu3 atualmente utilizado nas espadas atuais. Já a utilização de bambus com maior diâmetro, resistência e tamanho dos gomos, é herança da utilização dessas mesmas dimensões no antigo buscapé, também um foguete de rabeio, mas que explode no final. As antigas espadas se assemelhavam muito mais aos chamados coriscos atuais e, pelo que me foi informado, não havia a utilização de limalha de ferro nos mesmos. A utilização predominante do bambu atual, ao que parece começou a ocorrer entre as décadas de 1930-1940, justamente quando a guerra foi se tornando um padrão no processo de desenvolvimento do divertimento. Nesse momento, a administração local passou a combater a utilização de buscapés, uma vez que esses propiciavam um risco intenso ao explodir, inclusive porque, uma das formas de se brincar com a espada, é justamente pela prática da desentoca, ou seja, correndo-se atrás da espada que foi atirada contra si mesmo, e atirando-a de volta ao primeiro tocador, ou apenas pisando na espada. Tal prática, ao que parece, produziu no passado machucados gravíssimos em muitas pessoas por conta justamente da convivência entre toca de espada e buscapé, quando exteriormente idênticos. A partir da década de 40, a estrutura básica da guerra, com a eliminação dos buscapés da brincadeira e com as brincadeiras e chistes característicos entre amigos e familiares nos festejos, estava já praticamente definida, a não ser por três fatores interligados que só poderão se configurar posteriormente: 1) na década de 40 o festejo junino ainda era um festejo basicamente familiar e doméstico, no sentido da família extensa, tendo Cruz das Almas provavelmente não mais que 15.000 habitantes; 2) o fabrico naquele momento ainda era predomínio quase exclusivo de fogueteiros profissionais; 3) por fim, a festa não tinha nenhuma relação com o turismo, estando a cidade relativamente isolada de moradores não nativos, ou pelo menos, moradores que não tenham vivido experiências lúdicas semelhantes em suas cidades de origem, considerando-se a popularidade do São João no interior do nordeste, e mesmo do Brasil até esse momento.

(FONTE: BRINCANDO COM FOGO: ORIGEM E TRANSFORMAÇÕES DA GUERRA DE ESPADAS EM CRUZ DAS ALMAS, Dr. Moacir Carvalho, UnB. in http://www.cult.ufba.br/enecult2009/19327.pdf )

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