NOSSA MEMÓRIA AFETIVA CONTA A HISTÓRIA DA CIDADE.

A narrativa (…) ativa o imaginário, mantém viva a memória, salva as ações humanas do esquecimento e da morte. (André Bueno)

Ainda que aparentemente mergulhado em devaneio nostálgico, justifico esse meu passeio afetivo por uma cidade que mistura o vivido ao imaginado e, ainda que estejamos em outra época, acredito ser possível compartilhar mesmo com aqueles de memória mais recente. Não é preciso ter vivido aquele momento para encantar-se com seus elementos. 

O que me interessa nesse momento, é discutir que elementos despertam o interesse e encantam a imaginação, mantendo em nós a história uma coisa viva. Certamente não são as repetições de datas e nomes dos pontos decorados no grupo escolar. Penso que deve existir um momento ou um ato capaz de atiçar a fantasia e a memória, algo presente no ato de contar a história. Seria a narrativa em si, “o como”, apenas uma questão de talento que pode ser aperfeiçoado, ou algo natural e especial na postura, no timbre da voz, na sensualidade ou afeto contido gesto, não importando “o que” se conte – mentira ou verdade soam com a mesma intensidade. O certo é que há qualquer coisa que vibra e contagia, reverberando e gravado em nossa película interna. Por outro lado, penso que a imaginação é algo em nós guardado, como asas que ao receber um sopro qualquer ganham impulso e podem fazer voar.

Penso que a lembrança desse fato pode remeter diretamente ao papel assumido pelas narrativas na construção e permanência de mitos e heróis. Ciclicamente eles necessitam ser rememorados, remontados, ganham corpo e vontade, dando sentido à existência, sustentando e fortalecendo a cultura que os gerou. Caso contrário serão apagados e esquecidos.

(Baseado no texto do jornalista Otoni Moreira Mesquita)

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ESTAÇÕES GÊMEAS?

Vejam a incrível semelhança entre estas antigas estações ferroviárias: a primeira é a daqui de Cruz das Almas, e a segunda, já demolida, é de Feira de Santana.

Há quem diga, talvez baseando-se simplesmente na semelhança do desenho arquitetônico, que ambas as estações foram projetadas por Oscar Niemeyer; este blog, porém, em suas pesquisas ainda não encontrou registro documental algum que possibilite afirmar essa versão. 

A FESTA DA PADROEIRA

Dezembro de 1939

Antigamente, a festa da Padroeira Nossa Senhora do Bonsucesso era realizada na primeira semana de dezembro, apresentava um cenário bastante diferente do presenciado atualmente. Na parte sacra não houve grandes mudanças, porém na profana ocorreram significativas modificações quanto à qualidade e a quantidade das atrações oferecidas. O tempo, na sua marcha evolutiva irreversível, levou muitas delas para o arquivo das recordações, às quais temos o imenso prazer de relembrá-las. Não existem mais nas quermesses com seus leilões: as bancas de jogos de diferentes modalidades, o “Bumba Meu Boi” de André Derrapante e a “Burrinha” de Zé de Bibiano, as doceiras com seus tabuleiros repletos de doces de sabores variados, sempre iluminados pelos tradicionais candeeiros a querosene, entre as quais Chica Pavão, Joaninha Cachimbo, Maria Sapé, Justiniana e Olegária. Apenas restou a queima de fogos variados e específicos para o evento, cuja fabricação os sucessores do Totônio Fogueteiro deram continuidade.

(FONTE: NARRATIVAS QUE A MEMÓRIA CONSERVOU – CRÔNICAS de Leandro Costa Pinto de ARAÚJO, 2015.)

O CASO DA INAUGURAÇÃO DA RÉPLICA DA TORRE DE PETRÓLEO

Cyro Mascarenhas relata-nos um acontecimento ocorrido provavelmente entre o final da década de 50 e início da de 60, quando a Frente Nacionalista de Cruz das Almas resolveu construir um monumento em homenagem à Petrobrás para ser instalado numa praça da cidade de Cruz das Almas. Era a réplica de uma torre de petróleo construída em madeira de lei.

“um fato curioso que merece destaque, é a história da inauguração da torre de petróleo, erguida sob os auspícios da Frente Nacionalista, com a colaboração da prefeitura municipal. O local escolhido para esse monumento em homenagem à luta pelo petróleo foi a Praça dos Artistas, sabe onde é? Ali na confluência da antiga rua da Estação com a rua Mata Pereira, uma praça de formato triangular. Bem em frente ficava a Sociedade Beneficente dos Artistas e vem daí o nome da praça. Pois bem, essa torre construída pelo talento do operário cruzalmense foi colocada no local, às vésperas de sua inauguração que aconteceria num domingo. Para surpresa geral, a torre desapareceu na madrugada desse domingo. A solenidade já estava programada, convites expedidos para autoridades e a população. O que fazer? Essa era a dúvida que atormentava os dirigentes da Frente. Resolveu-se encomendar às pressas, uma pequena réplica medindo mais ou menos um metro. Ela seria exibida no verdadeiro comício em que se transformou o que seria uma simples solenidade. Foi redigido um manifesto denunciando à população a suposta ação criminosa perpetrada por entreguistas reacionários, lacaios do truste internacional. O alto falante móvel começou a circular por todas as ruas, divulgando o manifesto e confirmando a realização do evento, ainda que com uma torre simbólica. Nesse ínterim descobriu-se que o monumento fora arrastado e largado num matagal da Escola Agronômica. Fora obra de alguns estudantes que retornando da farra de fim-de-semana resolveu fazer a sacanagem. Mas aquela altura isso pouco importava.O importante era tirar proveito do fato. O que foi feito com a maestria de companheiros comunistas experientes nesse mister. Essa turma era retada mesmo (…) No final da história, quando a praça já estava lotada, os ânimos exaltados, e o prefeito fazia o seu discurso, eis que é anunciada a chegada da torre. Era trazida por uma comitiva de estudantes que resolvera devolvê-la a tempo de ser devidamente inaugurada. Era de arrepiar ver o povo, em delírio, aplaudindo a chegada torre! Uma apoteose, um grand finale (…).”

(FONTE: http://www.historiaoral.org.br/resources/anais/3/1340416677_ARQUIVO_TEXTOCOMPLETOHEBERok.pdf ; excerto: Depoimento do Sr. Cyro Mascarenhas Rodrigues em Cruz das Almas (BA), Agosto de 2010, p.p 24-25. )

ILUSTRES VEREADORES QUE TÊM OS SEUS NOMES DENOMINANDO RUAS

Desidério Brandão – 1930/1934

Dr. Edmundo Pereira Leite – 1948/1950; 1951/1954; 1959/1962; 1963/1966

João Gustavo da Silva – 1959/1962

Silvestre Mendes – membro do Conselho Municipal em 1930

Leopoldo Cezarano – membro do Conselho Municipal em 1897/1899/1903/1907

José Lino de Queiroz – membro do Conselho Municipal em 1899/1903 e intendente em 1907

A BANDEIRA

Resultado da Lei ou da tradição, a Bandeira é o símbolo representativo de um grupo: seja um Estado, uma região, uma cidade, uma empresa, uma sociedade ou simplesmente um individuo.
Ligada a princípios básicos como a simplicidade, a simbologia e a distintividade, a Bandeira é um elemento de nobreza de entre todas as simbologias e representações.

A Bandeira de Cruz das Almas é formada de um retângulo com fundo na cor amarelo ouro, sobreposta com uma cruz firmada de preto, acompanhada de quatro enxadas; em que o amarelo ouro é alusivo às riquezas das suas terras férteis e as enxadas simbolizam a atividade agrícola aqui muito bem desenvolvida. O conjunto da obra, portanto, é uma referência ao nome da cidade – Cruz das Almas.

Instituída por decreto pelo então prefeito Dr. Fernando Carvalho de Araújo, em 29 de julho de 1971.

COFEL: uma empresa cruzalmense

Em 1978, dois sócios da Comercial São Luis, em Santo Antônio de Jesus-BA, Gorgônio Oliveira e Antônio Leal, com o propósito de expandir suas atividades comerciais, decidiram estabelecer uma loja do ramo de ferragens na cidade de Cruz das Almas-BA. Acreditando na capacidade administrativa de um dos seus funcionários, Carlos Valter Vilas Boas, convidaram-no para fazer parte da sociedade deste empreendimento.

Logo que se estabeleceu, a Cofel teve uma boa aceitação da sociedade cruzalmense e das cidades circunvizinhas, havendo a necessidade de diversificar seus produtos e, consequentemente, ampliar suas instalações, sendo adquiridas algumas propriedades vizinhas.

No ano de 1987, a Cofel expandiu-se, inaugurando uma filial na cidade de Santo Antônio de Jesus-BA, onde hoje está estabelecida na rua Tiradentes. Em 2002, outra filial foi inaugurada na cidade de Valença-BA, situada na Rua Dr. Rocha Leal. A filial mais recente foi inaugurada em 2013, também na cidade de Valença-BA, denominada Cofel Construção e está localizada na rua Juvêncio de Resende. Atualmente a Cofel gera 351 empregos diretos.

A empresa sempre buscou colaborar com atividades sociais, contando sempre com o apoio dos seus principais fornecedores.

Com o passar dos anos, a Cofel  tem buscado cada vez mais diversificar seu  mix de produtos, que conta hoje  com mais de 30 mil  itens  espalhados  nas suas lojas.

A Cofel vem se destacando na região por ser uma empresa  dinâmica, que busca cada vez  mais fortalecer os vínculos de  amizade com seus clientes e  fornecedores.

(FONTE: http://www.cofel.net/empresa.html )

CURIOSIDADE

Antiga Fábrica Suerdieck

Sabia que entre a década de 30 e a década de 50, a rua da Estação ou Ruy Barbosa era uma das principais ruas de Cruz das Almas? É que naquele período, ela era dividida por uma linha de trem, sendo umas das vias de acesso de movimentação de mercadorias e de pessoas. Talvez também por esses motivos tenha concentrado maior número de funcionários que trabalharam na Suerdieck. Pois, ainda, era uma das principais ruas de acesso à fábrica. A rua da Estação ou Ruy Barbosa, até os dias atuais, mantem ex-funcionários da fábrica.. Outros moravam em ruas como: da Malva, Jerema, Rio Branco, das Flores, Alberto Passos, Dr. Ribeiro Santos, Dr. J.J. Seabra, Jenipapo, Estrada de Ferro, 2 de Julho, Vitória, Matadouro, Manoel Vilaboim, Mata Pereira entre outras, conforme foi encontrado nas fichas antigas da extinta fábrica Suerdieck.

GERALDO SUERDIECK

Geraldo Suerdieck: Empresário, conhecido na Europa como o ‘Rei do Charuto Brasileiro’

Durante 27 anos, de 1948 a 1975, o empresário baiano Geraldo Meyer Suerdieck esteve no comando da Suerdieck S.A. Charutos e Cigarrilhos, cabeça de um grupo que chegou a ter 16 empresas. Todas estavam ligadas ao cultivo e comercialização de fumos para charutos e à produção e distribuição de charutos nos mercados interno e externo. Três ficavam na Alemanha (Hamburgo, Freiburg e Emmendingen) e uma em Zurique, na Suiça.

Sob a liderança de Geraldo, a Suerdieck transformou-se num império charuteiro que chegou a ter 4.128 empregados (2.918 mulheres), além dos trabalhadores temporários (em torno de 3 mil pessoas), utilizados nas três fábricas de charutos no Recôncavo (Maragogipe, Cruz das Almas e Cachoeira)  e nos armazéns de fumos localizados em 13 dos 21 municípios baianos produtores de tabacos nobres.

A Suerdieck foi a maior fabricante da história dos charutos brasileiros e a maior produtora mundial de charutos totalmente artesanais. Em 1956, ao produzir e vender 180 milhões de charutos, estabeleceu um recorde mundial para um único fabricante. Um outro recorde foi o de marcas de charutos: no período de 70 anos (1905-1975) teve 464 marcas comercializadas. Para atender os variados gostos dos clientes, espalhados pelo território nacional e em dezenas de países, chegou a fabricar simultaneamente 300 marcas.

Nas décadas de 1950 e 1960, o presidente da Suerdieck constituiu-se no empresário baiano que mais viajava ao exterior, sempre para fechar negócios que representavam ingresso de divisas na economia nacional. Poliglota, dispensava intérpretes e negociava diretamente os contratos. Na comunidade européia, além de executivo renomado, era considerado como um dos grandes especialistas do mundo em fumos e charutos. Os importadores chamavam-no de “o rei do charuto brasileiro”.

Na época em que a economia fumageira era poderosa na Bahia, o líder do Grupo Suerdieck foi presidente do Sindicato da Indústria de Fumo do Estado da Bahia, presidente da Câmara de Fumos da Bolsa de Mercadorias da Bahia, diretor da Associação Comercial da Bahia e fez parte do primeiro conselho fiscal da Federação das Indústrias do Estado da Bahia, fundada em 1948.

Responsável pela consolidação do prestígio da Suerdieck nos quatro cantos do mundo, Geraldo também muito contribuiu para propagar os nomes da Bahia e do Brasil no exterior. Em 1958, escolhido por uma comissão criada pelo Governo Federal, para analisar e aprovar destaques na vida sócioeconômica do país, foi laureado pelo Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, que lhe conferiu uma Medalha de Ouro e um Diploma de Honra ao Mérito no Trabalho e na Produção. Foi o primeiro industrial do Norte/Nordeste a receber essas honrarias.

Em sua homenagem, na cidade de Cruz das Almas existe a Praça Geraldo Meyer Suerdieck. Em Salvador, no bairro da Boca do Rio, encontram-se a Rua Geraldo Suerdieck e a Travessa Geraldo Suerdieck.

Filho de pai alemão e mãe brasileira, Geraldo Suerdieck nasceu em Maragogipe, a 23 de novembro de 1918.  Passou o início da infância praticamente dentro da fábrica de charutos fundada pelo tio, August Wilhelm Suerdieck. Quando atingiu a idade escolar foi enviado pelo pai, Gerhard Meyer Suerdieck, para ser educado na Alemanha, em Stadthagen, cidade da família paterna. Depois, como preparação da formação profissional, trabalhou em Hamburgo, de 1937 a 1939, no Donnerbank, grande organização bancária alemã, que também atuava com importações e exportações. O banco treinava filhos dos clientes alemães que eram grandes empresários no exterior.

Muito tempo depois de ter deixado a Suerdieck, o baiano que foi o brasileiro de maior destaque no mercado mundial produtor de charutos, teve o dissabor de acompanhar a evolução da crise que decretou o fim das atividades da empresa que chegou a ser a maior empregadora de mão-de-obra e a maior pagadora de impostos na Bahia.

Encerrando um ciclo de 94 anos na produção de charutos famosos, a última fábrica da Suerdieck, em Cruz das Almas, foi fechada no dia 1º de dezembro de 1999. Dez anos depois, em 16 de dezembro de 2009, Geraldo Meyer Suerdieck faleceu em Salvador, de forma tranquila e serena, dormindo em seu apartamento, aos 91 anos, sendo sepultado no mausoléu da família, no Cemitério do Campo Santo.

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Texto condensado do livro ‘Suerdieck, Epopeia do Gigante’, de Ubaldo Marques Porto Filho.