ANDRÉ PEIXOTO, O SENHOR DOS CORDÉIS.

André Antônio Peixoto nasceu na localidade de Araçá, zona rural de Cruz das Almas, no dia 30 de novembro de 1908. Filho de Clementina Romualda de Souza e de Romão Antônio Peixoto. Morou na roça até os quinze anos de idade, trabalhando como agricultor. Depois, em 1923, foi trabalhar em Salvador, retornando para Cruz das Almas em 1927. Em 1939 começou a trabalhar na Escola de Agronomia; primeiro na firma de construção, depois como funcionário da EAB, na função de pintor, até aposentar-se em 1983.

Já aposentado, tinha ali próximo ao Mercado Municipal uma barraquinha onde vendia um sabão medicinal que ele próprio fabricava e livros de cordel de vários autores, além dos de sua própria autoria.

O cordelista André Peixoto faleceu em maio de 1994.

(FONTE: O Livro do Centenário, de Alino Matta Santana. )

(IMAGEM: Jornal O Nacionalista, de 5 de abril de 1959 – acervo de Hermes Peixoto Santos Filho)

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PERSEGUIÇÃO ESCRAVOCRATA EM CRUZ DAS ALMAS

Capitão do mato prende cruzalmense por ele ser filho de uma africana importada.

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A reportagem intitulada Que Malvadez!, publicada no jornal abolicionista O Asteróide, da cidade de Cachoeira, em 1887, narra a prisão de Antonio, homem de bom “procedimento” e “querido por todos”. Considerada uma prisão injusta pelo periódico, Antonio seria filho de escrava africana importada ilegalmente após 1831. Antonio, certamente, sabia da ilegalidade do tráfico de sua progenitora e do seu direito de liberdade, contudo, a lei dificilmente era cumprida sem a ação de abolicionistas. A forma truculenta como Antonio foi abordado revoltou os editores do jornal:

” Na freguesia de Cruz das Almas viva, há muito tempo Antonio, conhecido por Tuite, negociando com molhados, comprando e vendendo por sua conta, e tendo um procedimento, pelo que era querido por todos. Em um bello dia, antes do Natal, appareceo o Capitão Pedro Celestino da Rocha “dizendo-se senhor” de Antonio, e bruscamente, ajudado “de capitães do mato” prenderam-no violentamente, e levaram o infeliz amarrado em cordas, para o engenho do senhor Umbelino, onde dizem metteram no em tronco. A venda de Antonio trancada, tendo elle o prejuízo da vendagem, assim como um botequim que tinha armado no arraial da Imbira, para a festa, ficou a toa. Acresce que Antonio é filho de africana importada depois de 31 e consta que a seu favor militam outras razões ainda. Veremos (O ASTERÓIDE, 1887, p.2). “

Não se sabe como o caso de Antonio da freguesia de Cruz das Almas foi resolvido, mas é possível classificar a ação de Pedro Celestino da Rocha, da família Rocha Passos, como violenta, associada ao fim da escravidão que se anunciava e a preocupação rigorosa em não perder nenhuma peça de escravo.

ODE A CRUZ DAS ALMAS

Cruz das Almas de outros tempos,
dos presepes, das jornadas,
bumba-meu-boi, lobis-homem,
e caipora nas estradas!

As novenas dos cruzeiros,
as roças de melancia,
os tanques, gratas piscinas
da criançada vadia!

Do futebol vagabundo,
com bolas de pé de meia,
de Zepelim, das arraias,
das rodas à lua cheia!

(Excerto de um poema do nosso escritor Galeno d’Avelírio )

GALENO D’AVELÍRIO, NOSSO POETA MAIOR.

Galeno1

Agnelo Gonçalves de Oliveira, o Galeno D’Avelírio poeta, orador, cronista, teatrólogo e jornalista, cruzalmense, nasceu na fazenda situada na Ladeira Bonita em 14 de dezembro de 1892 e casou-se com a também cruzalmense Anita Gonçalves da Silva em 1917. Não teve filhos, mas criou várias sobrinhas, destacando-se entre elas, por ter vivido mais tempo com o casal, Diva Gonçalves Rocha.

Galeno2

Galeno e sua amada esposa Anita

Fez o curso primário com o Professor Mata Pereira, com quem destacava-se como aluno. Após o curso primário, como não havia ginásio em Cruz das Almas, seguiu para Salvador a fim de tentar os estudos e trabalhos. Já nessa época, era um ávido leitor. Mas devido às dificuldades financeiras para manter-se na capital, teve que voltar para Cruz das Almas e passou a morar na Rua da Vitória. Ali começou a trabalhar com Artur Silveira na compra de fumo em folha para posterior venda aos enfardadores e armazéns de fumo para charuto. Em consequência dessa nova atividade e de seu desenvolvimento neste ramo de negócio, teve de mudar-se de sua terra natal, em busca de uma melhor colocação e por causa de uma oportunidade que surgira. Um tio de sua mulher, que era grande enfardador de fumo na cidade de Sapeaçu, chamado Elpídio Batista Magalhães, mandou-o para a cidade de Rui Barbosa para lá trabalhar.

Cabe aqui um pequeno, mas valioso, parêntese para transcrever as palavras de Galeno referindo-se ao deixar Cruz das Almas, sua terra amada:

“Raia a manhã exuberante de luz, vivificadora e alegre…

Um auto fonfona à porta, roquenho e impertinente

é que vou deixar Cruz das Almas, a terra querida do meu berço

em demanda de outras plagas amigas

embora, porém menos queridas que as da terra onde nasci,

esse ninho que me aquece nas geadas da vida…”

Lá no sertão, Agnelo abriu um armazém de “secos e molhados” que também era um ponto de compra de fumo. Periodicamente, o resultado de suas compras de fumo era transportado de trem para Sapeaçu, onde seu Elpídio enfardava o fumo para os grandes armazéns e exportação.

Mas, o negócio de fumo nunca foi o seu forte; queria sair dele.

Finalmente, surgiu o Cartório de Feitos Cíveis e Criminais que Agnelo comprou, lutando muito a seguir para se efetivar no cargo. Trabalhou no cartório por vinte e oito anos, aposentando-se em 1946, dois anos depois de uma lei de Getúlio Vargas que lhe permitiu aposentar devido a doença de que foi acometido, ainda que não tendo tempo suficiente para aposentadoria. Mesmo após a aposentadoria, permaneceu em Rui Barbosa por mais sete anos, isto é, até 1953, esperando que sua esposa também se aposentasse, pois ela era escrivã do Juri e das Execuções Criminais, naquela mesma cidade.

Galeno D’Avelírio era também um político fervoroso. Membro do antigo PSD de Rui Barbosa. Formou, ao lado de Cícero Alencar, um dos maiores caciques políticos do interior baiano. Em Castro Alves, formava com outro grande líder, que foi Rafael Jambeiro, também do PSD. Em Cruz das Almas, participou de várias campanhas políticas, pelo mesmo Partido, porém sem nunca ter se candidatado a cargo eletivo.

Como jornalista, foi figura sempre presente nas páginas do jornal Nossa Terra, em Cruz das Almas; O Castroalvense, em Castro Alves; e O Itaberaba, em Itaberaba. Colaborou ainda, através de crônicas e poesias, para os seguintes jornais: Diário de Notícias (Salvador), A Palavra (Rui Barbosa), O Eco (Juazeiro), O Rádio (Jaguaquara), O Paládio (Santo Antonio de Jesus), A Verdade (S.Gonçalo dos Campos), O Correio (São Félix), O Pequeno Jornal (Cachoeira); O Juazeiro (Juazeiro), A Razão (Jaguaquara), dentre outros.

Ainda como jornalista, editou o O Serventuário da Justiça, órgão de defesa da classe dos serventuários da Justiça, de onde partiram reivindicações que, após atendidas, representaram grande progresso para a classe, da qual ele também fazia parte.

Mantinha estreita amizade com os poetas baianos de sua época, entre os quais destacamos Pedro Barros e Carlos Chiacchio.

Geralmente como acontece com os gênios, foi também marcado pela fatalidade, pois, ainda jovem, foi acometido de um derrame que o deixou paralisado de um lado do corpo. Instalada a doença, não se acomodou; pelo contrário, fez muitos tratamentos em Salvador com vários médicos. Mas, o que foi mais importante, é que em nada foi afetado o seu cérebro; tanto assim que até o fim da vida permaneceu com sua inteligência brilhante a premiar todos aqueles que tiveram a felicidade de conviver com ele, ou que granjearam a ventura de ler suas obras, muitas inéditas.

Veio a falecer na casa de nº 522 da Praça Senador Temístocles (Praça da Matriz), em sua querida Cruz das Almas, vitimado por um câncer da carótida, no dia 12 de maio de 1955.

Galeno D’Avelírio não deixou nenhum livro publicado, mas suas principais obras poéticas, ainda manuscritas, constam de centenas de poesias reunidas em oito volumes, sendo um intitulado Poemas, outro Versos e os demais são Poemas 1,2,3,4,5 e 6. Tais obras, atualmente, estão sob a guarda da Fundação Cultural que leva o seu nome e, portanto, fazem parte do seu acervo.

(FONTES: LIVRO DO CENTENÁRIO, Alino Matta Santana e FUNDAÇÃO CULTURAL GALENO D’AVELÍRIO)

ESTÓRIAS DO CRUZEIRO DAS ALMAS – LIVRO 1

FOTO DA CIDADE 5

É incomum Cruz das Almas
Uma cidade chamar.
Quem não sabe se espanta
E se põe a perguntar:
Se a cruz é o sofrimento
Das almas a se queimar?

História e lenda se mesclam
Para o nome explicar,
A história é portuguesa,
A lenda foi um rezar,
Dos tropeiros, no descanso,
Das lides de viajar.

A história diz que um portuga
Aqui chegou, bem ou mal,
Fincou morada nas terras
Lembrando de Portugal.
Chamou Cruz das Almas o sitio
Em honra à terra natal.

E realmente existia
Nas terras de Portugal
Uma cidade chamada
Cruz das Almas, e afinal
Eis ai a explicação
Para o sobrenatural.

Manuel o português,
Parece até gozação
E era Caetano Passos
Um sobrenome de ação
Adotou a terra agreste
Como o seu novo rincão.

Se é verdade eu não sei
A névoa da dúvida existe.
Se foi ele ou outro foi,
Nos livros inda persiste,
A memória não registra
E o historiador fica triste.

E a lenda o que é que diz
Para explicar este nome?
Mario e Alino Santana
Escritores de renome.
Dizem: “cruz vem de cruzeiro”
E assim a duvida some.

Os homens eram tropeiros
Que transportavam riquezas
De São Felipe à Cachoeira,
Nas mulas nas redondezas.
Chegavam aqui à noitinha,
Cansados, mas sem tristeza.

Descansavam os animais,
Davam milho no embornal.
Queimavam velas pras almas,
Para espantar o mal,
Que na escuridão da noite
Poderia ser fatal.

Sob árvores frondosas
Acendiam as velas, primeiro,
Ajoelhavam e rezavam
Para as almas no cruzeiro,
Ali fincado e sozinho
Como um santo padroeiro.

Este cruzeiro ficava
Lá na “Estrada de Ferro”,
Bem na estrada das tropas
No planalto de um aterro
Bem no inicio da ladeira
Mas o assunto eu não encerro.

Outros dizem que o cruzeiro
Era na igreja matriz,
Onde nem tinha palmeiras,
Só mato e bicho feliz,
Um casario ao redor
Onde o homem era aprendiz.

A lenda e a história se unem
Para explicar o topônimo
Cruz e Alma tão distintas,
Que até parecem antônimos,
Mas neste caso presente
Cruz e Alma são sinônimos.

Alma é o sopro da vida,
Não é sobrenatural,
É o espírito divino
Do homem, parte imortal,
É o simbolismo bem posto,
Nesta terra sem igual.

A cruz representa a fé,
Símbolo maior de Jesus,
Lembrança pra que sejamos
Amor, esperança e luz,
Razão, consciência e paz,
Destino que nos conduz.

A cruz e as almas se fundem
Formam um nome de verdade,
De uma cidade altaneira,
Emblema da liberdade,
No Recôncavo da Bahia
A promissora cidade.

Sobrenatural aqui
Só a lenda da mãe-do-ouro,
Esfera de estrela em fogo,
Cruzando o céu sem desdouro,
De sete em sete anos,
Trazia riqueza ou agouro.

Contam que ela nascia
Num grotão de arrepiar,
Da serra da Copioba
Cruzava o céu a buscar
Certa luz que brilhava
Na Serra do Aporá.

Se você quer saber mais
sobre o assunto narrado
Procure pessoas mais velhas
Que vão deixa-lo assustado,
E quem já viu a mãe-do-ouro.
Ou quem ficou encantado.

Mas na história real,
Vamos falar de verdades,
De coisas que aconteceram,
De bondades, de maldades,
De belezas, de tristezas,
Alegrias e saudades.

Cariris e Sabujás
Eram os índios presentes.
Tinha padre de batina,
Tinha padre com patente,
Conego Franca, seu nome,
Nosso primeiro intendente.

Que fizeram com os índios?
Ninguém sabe, ninguém viu.
Uns dizem que foram expulsos
Ou mesmo a tribo sumiu,
Por sua própria vontade
Depois que o branco surgiu

O negro aqui era escravo,
Plantava o canavial,
Fumo, mandioca e jaca,
Seu alimento principal
Nas senzalas lamentavam,
Lembrando a terra natal.

À noite, muito cansado,
Com sono e quase sem fala,
Finge não ver o senhor
Lá no fundo da senzala,
Fazendo amor com seu bem,
Mesmo raivoso se cala.

E lá na cama de palha
Da senzala, a brincadeira,
Do amo fazendo amor
Com a escrava faceira,
Surgiu também por aqui
A mistura brasileira.

Não esquece sofrimentos,
Mas luta por seus direitos,
Buscando melhores dias,
Com importância e respeito,
É o povo cruz-almense
Cheio de brio e conceito.

No Engenho de Santa Ana
Francisco de Magalhães
Plantou cana em sua terra
E um novo sol nas manhãs
Erigiu a casa grande
Paro o filho e as cunhãs.

Mas a cidade crescia
Nos dois extremos o oposto
A cruz na estrada de ferro,
A corrente próxima ao posto
Pros lados da estação velha
Na alegria e no desgosto.

Da estação de Dioclécio
Ou se chegava ou partia
Pra aqueles que aqui voltavam
Era sempre uma alegria
E aqueles que iam embora
Pensavam voltar um dia.

Isto foi a introdução
Pras coisas que eu vou contar
Do povo que aqui viveu,
Das construções do lugar,
Do progresso e das vitórias
Desta gente singular.

Muitos que lerem estes versos
Sequer ouviram falar
Das pessoas fascinantes
Que passo a apresentar,
Foram eles os construtores
Deste torrão invulgar.

As primeiras construções
Feitas com muito ardor
Com marcas de mestre Franco,
Excelente construtor,
De Mestre Sala, o italiano,
E de Otens, o inovador.

Enquanto Franco fazia
As casas, e muito bem,
Mestre Sala arquitetava
Construções como ninguém,
E Otens fazia pro fumo
Espaçosos armazéns.

E a casa mais bonita
Era a do Major Alberto
Que eu nem sei quem construiu
Só sei que era abrigo certo
Pra compadres e eleitores
Que vinham de longe ou perto

Não se tinha arranha céu
Nem construção suntuosa,
Só a Escola de Agronomia,
Que surgia majestosa,
Saída das mãos de Sala
De dentro da mata airosa

As praças e ruas antigas
Traçadas com muito esmero
Tinham curvas desnecessárias
Hoje delicioso tempero
Para quem nelas transita
Sem temor ou desespero.

O povo da minha terra
Que passo a enumerar,
Muitos eu nem conheci,
Cito só de ouvir falar,
Mas acreditem, existiram
Não é nenhum bla, bla, bla.

Agora falo de um vulto
Feio, mas de feitos belos,
Era Cícero Nazareno,
Doador de caramelo
Atendia aos moribundos,
Com amor, e com desvelo.

Temístocles da Rocha Passos,
Filho ilustre e de valor,
Vereador, Deputado,
Intendente e Senador,
Conselheiro e Coronel,
Do Império Comendador.

A política, o seu fascínio
Cruz das Almas, seu carinho,
Muito simples e querido,
De estatura, um baixinho,
De alma um grande senhor,
Era assim o Seu Maninho.

O Prefeito Januário
Velame fez a cadeia
Em novecentos e vinte
e dois pra servir de peia,
Mas hoje abriga cultura,
Liberdade ali campeia.

O Major Alberto Passos,
Pessoa muito querida,
Conselheiro experiente,
Pela vida bem vivida,
Hoje em reconhecimento
Virou nome de avenida.

Para se aprender a ler
Não era uma brincadeira,
A palmatória batia
Em mãos ilustres, certeira,
Caso se errasse a lição
Do mestre Mata Pereira.

E o Crisogno Fernandes,
Nome de rua hoje em dia,
Vestia roupa de linho,
Comprada lá na Bahia,
Tinha relógio de ouro
Herdado da sua tia.

Dizem que nesse relógio
Número não existia,
Mas as letras do seu nome
Marcavam as horas do dia,
Mostrava essa coisa rara
Com orgulho e picardia.

Ele era o mais galante,
Um homem fenomenal,
Aromático, ele fumava
De fumaça especial,
Vestia terno engomado,
Linho branco, Diagonal.

Aqui quando se morria
O velório era carpideiro,
Regado à cachaça e doce,
Café forte e candeeiro,
Pra ser depois enterrado
Pelo Cirilo coveiro.

Cirilo era uma figura,
Sempre bêbado e simplório,
Cavava a cova com gosto
Não perdia um só velório,
Comia, bebia cachaça,
Chorava sempre o finório.

Outra figura lembrada
Dono de uma estória bela
Era um livre pensador
O senhor Venâncio Trela,
Cachaceiro inveterado,
Orador sem taramela.

Bêbado, subia ao coreto,
Discursava e criticava
Os políticos da terra
E tanto espicaçava
Que acabava na prisão,
Local onde se acalmava.

Num hospício das estrelas
Cheiroso, Ruzia e Bitela,
Flora Carango, o desejo,
Todos se lembram dela
Luiz do Riachinho, Xoxa,
Capeta, Pirria e Trela.

Pelas coisas que faziam,
Jamais serão esquecidos
Ilustravam a nossa crônica
Por muitos anos seguidos
Seriam eles normais
Ou então loucos varridos?

Porque hoje o que fazemos
Com o nosso mundo atual,
Poluindo e destruindo
De forma irracional,
Eu volto a me perguntar
Será que isso é normal?

Eles apenas dançavam
Cantavam e não destruíam
Felizes com seus trejeitos
Será que loucos seriam?
Ou oradores inflamados
Gritando quando bebiam?

Mestres Augusto e Barroso,
Famosos de profissão,
Augusto, mestre do fumo,
Barroso, mestre em balcão,
De farmácia e drogaria
Salvou vidas de montão.

Para se ir a Bahia,
Que era ir a Salvador,
Se pegava a marinete,
De Baratinha, o condutor,
Nos deixava em Cachoeira
Para pegar o vapor.

Oh! Viagem tão sonhada,
Pra qualquer moça ou rapaz,
No vapor da Cachoeira
Que já não navega mais,
Se ia para a Bahia
Cidade bonita demais.

Também se ia à Bahia
Por trem comum ou mochila,
De manhã cedo em São Felix,
Na estação tinha fila,
Ver a paisagem passando
Rio, monte, sítio e vila.

Mas voltando à nossa terra,
Que tem coisas de valor,
Tem mata de Cazuzinha,
E a fonte do Doutor,
Onde à tardinha eu ia
Para um banho sedutor.

A mata tá menorzinha
A fonte se acabou,
Os mais novos nem conhecem
Ninguém nunca se lembrou
De preservar os banheiros
Só a lembrança ficou.

E as festas que não tem mais?!
Lembro os ranchos de Dadinha,
Bumba Boi de Derrapante,
O teatro de Lozinha,
Batuque de Leonel
E os “Reis” de Maricotinha.

E o carnaval, esperado
Por homem, moça e menina,
Pois tinha baile infantil
Com confete e serpentina,
Meninos com “Rodo” na mão
Pra enfeitiçar a traquina

E o Baile da Prefeitura
Que não entrava um qualquer
Bailes na Lyra e na Euterpe,
Mais animados, até,
Nas ruas, blocos, caretas,
E homem que nem mulher

As “Pranchas” de Teodoro,
Alegorias de Verdival,
Mascarados e mandus,
Tudo muito original
E a alegria das marchinhas
Quarta feira era o final.

Ai, o Padre Deraldo
Passava cinzas na testa
De foliões bem cansados,
E de quem não foi à festa
Num latim arrevesado,
E quarenta dias nos resta…

Pra reconciliar com Deus,
Pra orar e pedir perdão,
Para fazer penitencia,
Jejum e muita oração.
Hoje em dia é diferente
É só farra e arrastão.

Quem não lembra das retretas
Das filarmônicas de então?
A Lyra e a Euterpe
Que até hoje ai estão,
Fazendo vibrar as almas
Com dobrados e emoção.

A Lyra de Seu Sizino
De Batuta afinada,
Silvestre Mendes na Euterpe,
De batuta premiada,
As batutas eram espadas
De uma guerra imaginada.

Quantas vezes eu ouvi
Esta guerra no coreto,
Levavam horas tocando
Um desafio em dueto,
E o povo ali, delirando,
Velho, novo, branco ou preto.

Que orquestra maravilhosa
Se eu pudesse criaria
Cabo Inocêncio na viola
Miro e a saxofonia,
O Violão de Gordilho
E Tonho na bateria.

O som do banjo de Pedro,
O trompete de Florzino,
Brazilinho no cavaco,
João Carango, bombardino,
Vivaldo no pé-de-bode,
Que lembrava um violino.

Martiniano de Melo
E seu fole pregueado,
Tiago tocando trompa,
Doré muito ritmado,
Com seu pandeiro estiloso,
Tudo muito combinado.

No mês de Setembro inteiro
Os carurus festejados
De Souza e Dona Marocas
Eram os mais disputados,
Rezava-se para os santinhos
Queridos e respeitados

E as festas de São João
Hoje tão modificadas,
Em cada casa, um forró,
Milho canjica e cocada
Llicor de maracujá
Para animar a moçada

Veio depois Jenipapo,
Mas servia para alegrar
E hoje virou o primeiro
No gostinho popular,
Deixando todos afoitos
Pra verem espadas rolar.

Zeca Sampaio tocava
As espadas amarradas
No tronco dos oitizeiros
Bem em cima das calçadas,
Não feria nem queimava
Em surpresas encantadas.

Aqui haviam escritores
De lembrança bem saudosa:
Jacinta Passos, guerreira,
Cordel de Conde Barbosa,
André Peixoto, inspirado,
Sismil de rima gostosa.

E Galeno d’Avelírio,
Que a sua terra cantava,
Cantava o amor e amadas,
Nos seu cantar delirava,
Amores nunca sonhados
E a nossa alma enlevava.

Dois Chicos eu conheci,
Chico Boi e o do Rolete,
Um artesão de sapato
O outro com voz de falsete
Mercava roletes de cana
Que fazia o nosso deleite.

Julinho e Cula também
Calçavam os pés da gente
Com solado de pneu,
Seus sapatos, de repente,
Por nós os mais odiados
Mereciam até patente.

Hoje Walmart é mercado
E era a Suerdieck de então,
Indústria muito importante
De charuto feito à mão
Por mais de cem operárias,
Oh! Quanta recordação.

Folhas curadas, marrons
Do lavrador a canseira
Eram bem esculturadas
Por mãos morenas, ligeiras
Viravam charutos ninados
Nos colos das charuteiras.

Charutos cruzavam os mares,
Partindo de Salvador,
Agradava bocas ricas
De reis, plebeus ou doutor,
Padres, ricos, sábios, nobres,
Em terras do exterior.

Aqui tinha dois cinemas,
Coisas que hoje não tem.
Cine Glória que virou Ópera
Tinha o Popular também
Lá fabriquei fantasias,
Viajei em sonhos de além.

Guardo até hoje um pedaço
Da celuloide cortada,
Com seus furinhos do lado
Mostrando a curva adorada
Dos belos seios de Marylin
Monroe, a musa sonhada.

Hoje o mundo tá inundado
De telefone celular,
Nos tempos de antigamente
Para se telefonar
Ou era Bila ou Litinha
Que fazia a gente falar

Eram duas cabines com vidro
E um telefone a chiar,
Zumbidos, roncos, estáticas,
Difícil comunicar
Com alguém do outro lado
Que não podia escutar.

A cidade viu surgir
Seu primeiro arranha céu
Dois pavimentos modestos,
Foi motivo de escarcéu,
A audácia de Seu Zé Curi,
Um vendedor de chapéu.

Novenas da padroeira
Eram tempos de namoro,
Olhar furtivo era o gozo,
Alegria, paixão e choro,
E se a escada deixasse
O namoro era no coro.

Oradores inflamados,
Zé Rocha e Aderbal Pereira,
O caminhão de Irineu
Era o ônibus de carreira
E o Viriato e a tesoura
Aparavam a cabeleira.

Nossa feira era na praça
Que hoje é fonte luminosa,
Tudo vendido no chão,
Farinha, carne, “penosa”,
Milho amendoim, feijão,
Verdura e fruta gostosa.

Da feira da minha infância
Que eu ia toda semana,
Tóim vesgo e os cavalos
Feitos de flecha de cana,
E Colher de Pau mercadeando
machucador de imburana.

Ao vate Luciano Passos,
Que nesta terra vivia,
Eu dedico este trabalho
Sobre a sua Estrela Guia,
Que é também Lençol Perpétuo
Na sua última moradia.

Em dois livros ele nos conta
Estórias desta cidade,
Procurem pra ler que é bom,
Com metáforas sem idade.
Vai do ontem ao amanhã
Com magia e com saudade

Se acham que esqueci
De algum vulto famoso
Mande seu nome pra mim
Que escreverei, sem repouso,
A sua estória contada
Em outro livro precioso

Este é o primeiro livro
Deste longo itinerário,
Que é contar a história
Desta terra, um breviário,
No próximo ano, farei
Um outro livro lendário

Trazendo histórias recentes,
Contando fatos reais,
Ainda bem na lembrança
De avós filhos e pais,
Pra que fiquem registradas
Também coisas atuais.

Que num futuro, quem sabe,
Sejam lembranças totais
De um tempo, hoje, recente
Que não existirá mais,
Como estes que eu relato
Neste livrinho fugaz.

Autor: Hermes Peixoto (Agá Pê)

(FONTE: http://www.recantodasletras.com.br/cordel/3841776)

GLÁUCIA GUERRA

Gláucia Guerra de Oliveira nasceu em Cruz das Almas em 12 de maio de 1935. Filha do ex-prefeito Jorge Guerra e de D. Isolina de Andrade Guerra. Casada com o Dr. José Assis de Oliveira, de cujo enlace resultaram oito filhos. Foi Diretora do Colégio Municipal Jorge Guerra, professora de Educação Musical e autora de diversas peças musicais. Foi também colaboradora do Jornal do Planalto e da Revista Literária Reflexos de universos. Poetisa de grandes recursos, participou como co-autora dos livros de poesia “Em Carne Viva” e “Asserto”. Individualmente publicou “Gravidescência” e “Força dos Motivos”.

ULTRAPASSAGEM
No medo do teu próprio grito
está o grande impecilho
para que possas captar
os ecos que ultrapassam
todas as barreiras.
Leberta-o pois – sem medo –
pelos despenhadeiros
em que se precipitam
o teu pensamento,
o teu ideal e o
riso, suor e sangue.

Um grito causa afonia,
quando a coragem morre na garganta
e o ideal deixa que se partam
as cordas vocais e a mente
atrofia a expressão verbal.
Cura-a pela tenacidade
dos teus dias…
e quando – abruptamente –
o dia se fizer noite,
deixando-te atônito,
aguarda confiantemente
o acender das luzes condensadas
pelos sábios “vagalumes”.
E rompe com teus gritos
o invólucro da alegria
para divisar a luz da tua
própria LIBERDADE.

Artista plástica de alto gabarito, expôs suas pinturas por diversas vezes na Casa da Cultura Galeno D’Avelírio em exposições tanto individuais quanto coletivas. Gláucia Guerra faleceu no dia 02 de novembro de 2013, em Cruz das Almas.

LUCIANO PASSOS, ILUSTRE CRUZALMENSE.

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Luciano Passos nasceu em Cruz das Almas, poeta, advogado, político e fotógrafo. Casado com a poetisa Lita Passos, para quem escreveu seus mais belos poemas e pai de Bárbara e Lucas.

Abaixo, alguns dados biográficos, em ordem cronológica, sobre Luciano Passos:

1944 – Nascimento, 04 de maio, na Fazenda Campo Limpo, Cruz das Almas, Bahia, filho de Dr. Ramiro Eloy Passos e da Prof.ª Maria Ubaldina Silva Passos;

1950 – Faz o curso primário no Prédio Escola Comendador Temistocles, e o curso ginasial no Colégio Estadual Alberto Tôrres em Cruz das Almas;

1960 – Mudança para Salvador, Bahia  – Faz o curso Clássico no Colégio Antonio Vieira;

1966 – Redator da Secretaria de Turismo da Prefeitura Municipal de Salvador.

1967 – É Bacharel em Direito, pela Faculdade de Direito da Universidade Católica de Salvador;

1968 – Advogado da Secretaria do Trabalho e Bem Estar Social da Bahia;

1970 – Assessor Jurídico do Ministério das Comunicações em Brasília-DF;

1971 – Chefe do Serviço Jurídico do Departamento  de Administração do Ministério das Comunicações em Brasília-DF;

1974 – Casamento a 23 de dezembro com Angelita de Almeida Passos (Lita Passos), cruzalmense, poetisa, ele com 30 e ela com 20 anos;

1976 – É vereador eleito à Câmara de Vereadores de Cruz das Almas. Nasce seu filho Lucas de Almeida Passos em Salvador-Ba;

1977 – Nasce sua filha Bárbara de Almeida Passos, em Cruz das Almas-Ba;

1979 – Professor de Organização Social e Política do Brasil, e, Direito e Legislação do Colégio Alberto Tôrres;

1979 – Gerente do Centro Social Urbano de Cruz das Almas até 1989;

1983 – Vereador Eleito à Câmara de Vereadores de Cruz das Almas e Presidente da Câmara;

1984 – Presidente da Associação de Vereadores do Recôncavo;

1985 – Publica Casulo de Vidro – Poesia – “Fotos e poemas se misturam num Mundo de luzes brancas e pretas”;

1987 – Publica Cavalo Estrelado – Poesia Um livro dedicado aos assanhaços da sua terra, uma demonstração da força viva da natureza;

1989 – Vereador Eleito à Câmara de Vereadores.

1989 – Publica Corpo Aceso – Poesia – Dedica este livro a “Estrela mais Próxima” Minha pele é um reboco e meu queixo é apenas a perspectiva de um soco”, diz o poeta;

1990 – Relator da Lei Orgânica do Município de Cruz das Almas;

1990 – Presidente da Fundação Cultural Galeno D’Avelírio (Casa da Cultura) de Cruz das Almas;

1993 – Secretário da Prefeitura Municipal de Cruz das Almas;

1994 – Publica o livro de poesia Língua Bailarina, dedicado ao “som do sax e ao tom do sexo”;

1995 – Publica seu primeiro livro de prosa poética, “Cruz das Almas Estrela Guia e Lençol Perpétuo”. Homenagem a personagens da sua terra natal, para a qual se voltou inteiramente o seu espírito nos últimos anos de vida;

1997 – Assessor Parlamentar da Câmara de Vereadores de Cruz das Almas.

1997 – Publica Santa Cruz dos Laranjais – A obra revela em prosa poética o espírito do povo de Cruz das Almas, através de seus personagens. “É uma pesca da memória submersa; fotógrafa a alma de uma cidade através de instantâneos da sua gente e seus costumes”;

1997 – Faleceu em 14 de novembro, no Hospital COT, em Salvador-Ba. O funeral saiu da residência de seus pais em sua terra Natal, Cruz das Almas, onde vivera 53 anos.

Luciano Passos deixou inédito um livro: Imagens do Silêncio (Poemas de perdas e penas).

(FONTES: http://meyrekal.blogspot.com.br/2011/05/personalidade-cruzalmense-luciano.html;   http://www.cruzdasalmas.com.br/lucianopassos/p2/cron.htm; https://luciano-passos7.webnode.com/)

JACINTA PASSOS: UMA MULHER CRUZALMENSE, UM CORAÇÃO MILITANTE.

Jacinta Passos, com a filha Janaína (1948).

Jacinta Passos, com a filha Janaína (1948).

A baiana Jacinta Passos nasceu em Cruz das Almas, na região do Recôncavo da Bahia, em 1914, filha de Berila Eloy e Manuel Caetano da Rocha Passos, pertencentes a famílias tradicionais da região, muito católicas. Seu avô paterno, Themístocles da Rocha Passos, duas vezes Senador na Província (depois Estado) da Bahia, é hoje nome da principal praça da cidade. Seu pai, também político, foi eleito deputado estadual quatro vezes, as duas últimas pela UDN.

Jacinta passou a infância entre o núcleo urbano de Cruz das Almas e a fazenda Campo Limpo, de propriedade do pai, onde nascera e morava com a família, mergulhada na cultura do fumo, das tradições africanas e das canções infantis que marcariam sua poesia. Após a transferência da família para Salvador, cursou a Escola Normal, onde se formou com láurea. Trabalhou como professora de matemática, dando aulas particulares e, depois, na prestigiosa Escola Normal onde se formara. Nessa época, era muito religiosa. Praticava a religião com uma entrega total, dedicando-se com fervor e buscando uma união profunda e direta com Deus.

Desde o final da década de 1920 escrevia poemas, em geral de conteúdo religioso. Nos anos 30, ao lado do irmão, o estudante de medicina e também poeta Manoel Caetano Filho, participou de círculos e grupos literários de Salvador, como a Ala das Letras e das Artes (ALA), chefiada pelo crítico Carlos Chiacchio. Seus poemas começaram a circular entre os intelectuais da cidade. Continuava religiosa, mas, à medida que o tempo passava, sua religiosidade ia adquirindo conteúdo social e militante.

A partir da eclosão da Segunda Guerra Mundial, em 1939, envolveu-se fortemente com política. Ao lado do irmão, assumiu posições públicas e participou de movimentos a favor da paz mundial e do final da ditadura do Estado Novo. Denunciou as opressões que pesavam sobre as mulheres, defendendo mudanças imediatas na condição feminina. Continuava católica, porém cada vez mais afastada das posições ortodoxas da Igreja.

Após a entrada do Brasil na guerra, em 1942, participou intensamente da luta antinazista e antifascista, envolvendo-se com grupos de esquerda. Tornou-se também uma ativa jornalista, escrevendo sobre temáticas sobretudo sociais. Foi uma das poucas mulheres da Bahia, à época, a assumir posições políticas públicas e a desenvolver uma intensa e regular atividade jornalística, publicando artigos e poesias no jornal O Imparcial e na revista cultural Seiva. Publicou semanalmente em O Imparcial uma “Página Feminina”, que ampliava muito os assuntos habitualmente reservados às mulheres, introduzindo discussões políticas e literárias.

Jacinta alargou seus contatos literários, dedicando-se com afinco à poesia. Em 1942, publicou o livro Nossos poemas (Salvador, A Editora Bahiana), cuja primeira parte, “Momentos de Poesia”, contém poemas seus, enquanto a segunda, “Mundo em Agonia”, reúne poemas do irmão, Manoel Caetano Filho. O volume mereceu boas críticas na imprensa, firmando os nomes dos dois poetas no meio intelectual baiano.

Jacinta Passos tornou-se amiga de intelectuais comunistas, como Jorge Amado, que no final de 1942 retornara à Bahia, aprofundando a participação em movimentos sociais e feministas. Nessa época, abandonou o catolicismo.

Mudou-se em 1944 para São Paulo, onde se casou com o jornalista e escritor James Amado. No ano seguinte, publicou seu segundo livro, Canção da Partida (São Paulo, Edições Gaveta), contendo dezoito poemas, três transcritos do livro anterior. A edição, extremamente bem cuidada, foi de apenas duzentos exemplares, numerados e assinados pela autora e ilustrados pelo grande artista Lasar Segall. Canção da Partida recebeu críticas muito elogiosas de intelectuais expressivos como Aníbal Machado, Antonio Candido, Gabriela Mistral, José Geraldo Vieira, Mário de Andrade, Roger Bastide e Sérgio Milliet, firmando o nome da poeta no cenário nacional.

Jacinta Passos continuou fortemente envolvida com política. Lutou pelo final da guerra, pela redemocratização do Brasil, pela liberdade de expressão, pela anistia aos presos políticos e pela ampliação dos direitos das mulheres. Em 1945, ano em que o Partido Comunista Brasileiro (PCB) foi legalizado e lançou uma grande campanha de filiação de novos membros, ingressou oficialmente nesse partido, nele permanecendo até morrer.

De volta a Salvador, foi candidata a deputada federal e a deputada estadual pelo PCB, não se elegendo. Contribuiu para o jornal comunista O Momento e continuou participando ativamente da política. Em 1947, após uma gravidez muito difícil, deu à luz sua filha única. Com o marido e a filha, viveu alguns anos em uma fazenda no sul da Bahia, onde se dedicou à família e à escrita.

Mudou-se em 1951, com a família, para o Rio de Janeiro, onde lançou seu terceiro livro, Poemas políticos (Rio de Janeiro, Livraria-Editora da Casa do Estudante do Brasil). Contendo dez poemas inéditos, políticos e líricos, além de uma seleção de poesias anteriores, Poemas políticos ampliou o prestígio da escritora, tornando-a mais conhecida nos círculos literários do Rio de Janeiro, a capital do país.

No final desse ano sofreu grave crise nervosa, com delírios persecutórios. Ficou vários meses internada em sanatórios do Rio, onde foi diagnosticada como portadora de esquizofrenia paranóide, considerada então uma doença progressiva e irrecuperável. Durante essa internação e nas seguintes, foi tratada à base de choques elétricos, injeções de insulina e barbitúricos. Transferida para a Clínica Psiquiátrica Charcot, em São Paulo, teve o diagnóstico confirmado.

Em 1955, separada do marido e da filha, regressou a Salvador, voltando a residir com os pais. Continuou militando no PCB, um partido em crise, ensinou em comunidades pobres de Salvador e publicou artigos sobre literatura no jornal comunista O Momento, onde, durante alguns meses, foi também responsável por uma página literária. Continuou escrevendo poesias. Recebeu a visita da filha durante duas férias escolares e a visitou, no Rio de Janeiro.

Publicou em 1957 seu quarto livro, A Coluna (Rio de Janeiro, A. Coelho Branco Fº Editor). O volume contém um longo poema épico, de quinze cantos, sobre a Coluna Prestes, marcha de cerca de vinte e cinco mil quilômetros, empreendida na década de 1920, e liderada, entre outros, por Luiz Carlos Prestes, que buscava mudanças políticas profundas para o Brasil. O livro foi bem recebido por críticos como Paulo Dantas. Vários de seus trechos foram transcritos em publicações de esquerda do país, até 1964.

Após permanecer cerca de dois anos na cidade pernambucana de Petrolina, onde vivia sozinha e em extrema pobreza, transferiu-se em 1962 para Aracaju, em Sergipe. Ali morou, também sozinha, em Barra dos Coqueiros, povoação de pescadores situada em frente à cidade. Vivia muito pobremente, em um barraco de madeira, à beira do rio. Possuía uma máquina de escrever, onde, à noite, datilografava poemas e textos políticos, que distribuía pelas ruas durante o dia. Numa época de grande agitação e polarização política, desenvolveu, sozinha e ao lado de integrantes do PCB local, intensa militância junto a pescadores, estudantes e trabalhadores, inclusive após o golpe militar de 1964.

Foi detida em 1965, quando pichava nos muros da cidade palavras de ordem contrárias à ditadura. Recolhida ao 28º BC de Aracaju, graças à interferência da família Passos foi transferida para um sanatório particular da mesma cidade, a Casa de Saúde Santa Maria, onde permaneceu até sua morte, em 28 de fevereiro de 1973, aos cinqüenta e sete anos de idade.

 

JACINTA

(FONTE: Texto de Janaina Amado in Site Oficial de Jacinta Passos)