MESTRES ESPADEIROS

Alguns mestres espadeiros de Cruz das Almas. Ou seja, não simplesmente tocadores de espada, mas eram ou são referência na ciência do fabrico de uma boa espada e na arte de saber tocá-la:

  • Antonio da Paz, pai do vereador Osvaldo da Paz
  • Benedito Vermelho
  • Manhoso
  • Vaúca
  • Gilmar Mascarenhas Souza
  • Zeca Sampaio
  • Agenor Sampaio 
  • Leonidio Sacramento 
  • Abel Gustavo da Silva
  • Totonho Fogueteiro
  • Seo Mundinho da Coplan (além de fabricar, destacava-se na forma elegante com que tocava a espada)
  • Pedro de Seo Né
  • Flávio de Dé, da Sapucaia
  • Vicente de Paula Sampaio (Nego) 
  • Cao de Bob
  • Bila, da praça do Landulfo Alves
  • Cid, motorista da Cofel
  • Massa e Maxixe, irmãos de Vaúca.
  • Santo do Itapicuru
  • Conrado
  • Luciano Queiroz (Lucinho Perú).
  • Paulo de Coscotinho
  • Agenor da Embira
  • Seo Neco, da Rua da Vitória
  • Antônio Mariane, Lico filho de Zé do Alho
  • Sérgio Lopes
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BREVE HISTÓRIA RECENTE DAS ESPADAS

O termo espada liga-se, de imediato, ao fato de ser possível a sua manipulação por parte do guerreiro, como é chamado aquele que vai para as batalhas de espada, as guerras de espada. O feixe de luz propiciado pela queima da pólvora, quando é noite, produz uma imagem muito bela e, poder-se-ia dizer, uma imagem ao mesmo tempo temida e fascinante, ainda mais quando associada ao seu efeito sonoro, assemelhando-se a uma espada em movimento, uma arma-brinquedo animada e até mesmo dotada de “personalidade”, melhor dizendo, de mana transmitido da parte do fabricante, do possuidor, ao objeto possuído; senão que mana reivindicado por aquele que, mesmo sem tê-la fabricado, à utiliza em confiança de ser fortalecido por seu poder. Esta, a espada, objeto caracteristicamente significativo em sua ligação com a fantasia que se forma em torno da idéia de nobrezas guerreiras e castas medievais androcêntricas. Aliás, esse medievalismo, um medievalismo ibérico combinado à herança oriental e moura, parece inscrever-se em muito da produção estética sertaneja brasileira, uma certa mitologia do sertão encantado.

As antigas espadas em Cruz das Almas eram feitas de um espécie de bambu chamada taboca (Guadua weberbaweri), utilizando-se cortes do seu tronco em sua estrutura externa, tratava-se de um tipo de madeira de menor espessura e mais frágil que o bambu3 atualmente utilizado nas espadas atuais. Já a utilização de bambus com maior diâmetro, resistência e tamanho dos gomos, é herança da utilização dessas mesmas dimensões no antigo buscapé, também um foguete de rabeio, mas que explode no final. As antigas espadas se assemelhavam muito mais aos chamados coriscos atuais e, pelo que me foi informado, não havia a utilização de limalha de ferro nos mesmos. A utilização predominante do bambu atual, ao que parece começou a ocorrer entre as décadas de 1930-1940, justamente quando a guerra foi se tornando um padrão no processo de desenvolvimento do divertimento. Nesse momento, a administração local passou a combater a utilização de buscapés, uma vez que esses propiciavam um risco intenso ao explodir, inclusive porque, uma das formas de se brincar com a espada, é justamente pela prática da desentoca, ou seja, correndo-se atrás da espada que foi atirada contra si mesmo, e atirando-a de volta ao primeiro tocador, ou apenas pisando na espada. Tal prática, ao que parece, produziu no passado machucados gravíssimos em muitas pessoas por conta justamente da convivência entre toca de espada e buscapé, quando exteriormente idênticos. A partir da década de 40, a estrutura básica da guerra, com a eliminação dos buscapés da brincadeira e com as brincadeiras e chistes característicos entre amigos e familiares nos festejos, estava já praticamente definida, a não ser por três fatores interligados que só poderão se configurar posteriormente: 1) na década de 40 o festejo junino ainda era um festejo basicamente familiar e doméstico, no sentido da família extensa, tendo Cruz das Almas provavelmente não mais que 15.000 habitantes; 2) o fabrico naquele momento ainda era predomínio quase exclusivo de fogueteiros profissionais; 3) por fim, a festa não tinha nenhuma relação com o turismo, estando a cidade relativamente isolada de moradores não nativos, ou pelo menos, moradores que não tenham vivido experiências lúdicas semelhantes em suas cidades de origem, considerando-se a popularidade do São João no interior do nordeste, e mesmo do Brasil até esse momento.

(FONTE: BRINCANDO COM FOGO: ORIGEM E TRANSFORMAÇÕES DA GUERRA DE ESPADAS EM CRUZ DAS ALMAS, Dr. Moacir Carvalho, UnB. in http://www.cult.ufba.br/enecult2009/19327.pdf )

A GUERRA DE ESPADAS

Crônica sobre a tradicional batalha de fogos que acontece em Cruz das Almas, todos os anos, a 24 de junho, quando aqui atingem o clímax os festejos juninos.

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Bárbaro, semibárbaro, selvagem ou não, respeitados os sentimentos e as opiniões que despertam e originam, abstraídas certas naturais restrições e considerando do ângulo estético, temos de convir que é algo digno de ver-se, essa arrojada acrobacia faiscante e policrômica das “espadas”, nas olimpíadas disputadas nos dias dos festejos joaninos, e que serve de palco à nossa principal praça, a Municipal. E temos de reconhecer também, que já estão ganhando fama, fazendo “astros” e escola, a técnica, a perícia e a audácia dos aficionados do original esporte, que tem algo de espartano.

Espetáculo digno de ver-se, essa orgia louca de fogos, que cedo se inicia, intensificando-se gradualmente, para atingir o ponto máximo em intensidade e beleza quando jovens, adultos e quase crianças empenham-se nestes fogos florais, a esgrimirem em combates singulares ora em grupos, por vezes em “comandos” ou incursões solitárias, mas sempre a investirem, sem tergiversações nem temores, gládios flamejantes em punho, contra os alvos que lhe antepõem os outros preliantes, isolados ou não, sem atentarem nos perigos nem se cuidarem dos riscos ou danos físicos, relampejando fagulhas e chamas, quais iracundas potestades ou humanos arcanjos.

Dignas de ver-se, realmente, a calma, a precisão, a elegância com que investem e negaceiam, atacam, defendem-se e contra atacam, seguros e serenos, tripudiando sobre os répteis de fogo, dominando-os e devolvendo-os, com elegantes passes de toureador.

Se alguns, acrobatas e trapezistas aerodinâmicos, esmeram-se e estremam-se, librando-se em airosos remígios ou formando estranhas figuras geométricas, outros há que se exibem a saltitar, aos jatos, quais minúsculos dragões apocalípticos, em fúrias inúteis-salamandras vencidas, nos estertores agônicos.

E contemplareis, enfim, em meio às rajadas de fogo e cortinas de fumaça, os pequenos gavroches que formam espetáculo à parte, disputando os despojos da refrega que são os troféus dessa original e especializada olimpíada joanina.

Mario Pinto da Cunha, junho/1957.

(FONTE: Texto postado por Lita Passos in http://institutocampolimpo.blogspot.com/2012/02/ . Foto meramente ilustrativa)

O CASAMENTO DO CEAT

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A ORIGEM – No final da década de 70, no COLÉGIO ESTADUAL ALBERTO TÔRRES – CEAT, foi desenvolvido um projeto pedagógico intitulado São João na roça. Esse projeto visava despertar no alunado o interesse pela cultura popular e constituía na escolha de tarefas relacionadas com o São João por turma de alunos, que depois de apresentadas foram avaliadas para notas mensais. As tarefas escolhidas pelos alunos foram: comidas típicas, quadrilhas, dança de roda e casamento na roça. Depois das apresentações, o Casamento na Roça foi o que mais se destacou pelo seu desempenho e criatividade. O uso de licor, queima de espadas e outros fogos de artifícios no recinto do CEAT, eram naquela época proibido, porque feriam o regimento interno do estabelecimento. Por isso, todos os anos os alunos insistiam nessa prática, mesmo sendo contrárias ao regimento interno do CEAT sempre contornado pela direção. Surgindo assim uma ideia para a solução do problema, pleiteada pelos alunos como Sérgio Lopes, seu irmão Valtinho e outros, para que o Casamento fosse a partir dali, realizado na Praça Senador Themistocles. Acatada pela direção da época, constituída por Eleacy Leal, diretora e os vices diretores, Antonio Batista, Maria Antonia e Edelsuita Sampaio que fizeram uma exigência: para que a arrumação do Casamento fosse sempre no recinto do CEAT. Assim surgindo o CASAMENTO, que virou tradição. Daí em diante, o Casamento sempre foi arrumado em uma das salas do colégio, onde um aluno se travestia de noiva e uma aluna de noivo; o padre era sempre um aluno; todos vestidos a rigor, saindo do CEAT, conduzido por uma carroça enfeitada, passando pela Rua da Estação até a Praça dos Artífices, em direção a rua do hospital, rua da Suerdieck, Rua Crisógno Fernandes, daí até o coreto na Praça Senador Themístocles, onde acontecia a cerimônia do Casamento em grande estilo. Depois a festa se transformava numa grande batalha de espadas, consequentemente dando início ao São João de Cruz das Almas. Portanto o CASAMENTO DO CEAT é uma tradição criada pelos alunos daquela casa de ensino há mais de vinte anos, que também contou na época, com o entusiasmo de pessoas como o Capitão Antonio Leite e outras figuras que participavam do evento. ¹

O Casamento do CEAT, que aconteceu até o ano de 2011, “significava, para os foliões apreciadores das espadas, o mesmo que os antigos “gritos” de carnaval ou de micaretas significavam, ou seja, o anúncio da aproximação de uma determinada festa e a divulgação desse evento. É o grito do espadeiro, alterando o cotidiano da cidade em um dia comum, o que descortina uma atmosfera de irreverência em espaço público”.²

 

(FONTE: ¹Prof. ANTONIO BATISTA, ex-diretor do Colégio Estadual Alberto Tôrres. Eng° Agrônomo, Professor de História, Doutor-Honoris Causas pela UNI AMERICAN e Bacharel em Direito); ²Da Casa à Praça Pública – A espetacularização das festas juninas no espaço urbano. JÂNIO ROQUE B. DE CASTRO, EDUFBA 2012)

AS ESPADAS DE FOGO DO SÃO JOÃO DE CRUZ DAS ALMAS E A SUA FAMOSA “GUERRA DE ESPADAS”: HISTÓRIA, TRADIÇÃO E POLÊMICA.

As espadasespadaA espada originou-se do diabinho ou mosquito, canudinho de papel de cerca de 5 centímetros de comprimento por 3 a 4 milímetros de diâmetro, cheio de pólvora socada que corria doidamente nos passeios, trepava nas paredes ou arrancava do solo e se extinguia no ar; mas também muitas vezes, indiscreto e malicioso, metia-se debaixo das saias, provocando sapateados, gritos e carreiras. Depois surgiu o busca-pé chorão, assim chamado porque apenas corria e chiava, inapto a explodir. Esse já era feito de um pequeno gomo de taquara, reforçado exteriormente por um carbonato enrolado em espiral, e fechado com barro de massapê em ambas as extremidades. Numa delas, o fogueteiro abria com a broca o orifício do mesmo nome e, enchendo-o com pólvora umedecida para melhor aglutinação, preparava a escóva do artefato, protegendo-a, afinal, com um taco de papel enrolado e fechado à guisa de tampa. Em tamanho maior, chamava-se besouro, porque já roncava seu bocado; cometia maiores desatinos e podia vulnerar seriamente a quem topasse descuidado. Aí, chegava a vez do busca-pé de estouro, engenho preparado com especial atenção. Dentro do tubo e próximo de uma das pontas, o artífice arrumava o material detonante, e quando enrolava o fio, cuidava de marcar o local, dando aí mais largo passo à espiral. Devia-se pois, como medida de precaução, segurar a peça abaixo dessa marca, para menor risco no caso de um jibu (ou chabu), isto é, de um estouro prematuro. O busca-pé de limalha ou, abreviadamente, o limalha, era o membro maior da espécie, fabricado com os requintes da arte do busca-pé de estouro, mas recebendo no seu conteúdo inflamável certa porção de pó de aço ou de vidro. Resultava daí que o poderoso jato de fogo que escapava pela broca era uma chama branca e deslumbrante, em vez de avermelhada e fumarenta produzida pela combustão da pólvora homogênea. Esse era a arma legítima dos antigos combatentes, tão belos quanto perigosos. Nos tempos dessas justas formavam-se grupos capitaneados por um cidadão mais influente ou de mais largas posses, e dirigiam-se ao encontro uns dos outros, às vezes para ajuste de rivalidades que vinham de anos anteriores. Conduzindo os busca-pés prudentemente presos ao cinturão, com a broca para baixo, o que nem sempre evitava acidentes, ou resguardados em bornais de couro, os novos falangitas usavam muitas vezes luvas e casaco desse material, molhados de vez em quando, por precaução. Defrontavam-se os grupos ao acaso ou em lugares previamente marcados – uma rua mais larga, uma praça de igreja. E então, colocando-se estrategicamente, cada legionário empunhava seu buscapé, rasgava o papel da escóva e encostava-lhe o cigarro ou o charuto, quando não o acendia na fogueira que ia ser defendida do ataque inimigo. Em alguns, nada disso era preciso: bastava batê-lo de fronte numa superfície dura, e uma pequena porção de massa detonante produzia a fagulha inicial. A princípio hesitante, enquanto queimava a pólvora exterior, logo de dentro do tubo surgia a espada, uma chama resplandecente, sibilante, poderosa, capaz de arrancá-lo da mão que o prendia e levá-lo para longe, para o ar, doidamente, perigosamente.

O fabrico Encerando barbante

As espadas são fabricadas utilizando-se salitre, enxofre, carvão de quarana (pólvora); barro, bambu maduro cozido e seco, cordão de sisal, encerado com breu, parafina e cera de abelha.

A “Guerra das Espadas”

A  tradicional “Guerra das Espadas” é  um espetáculo de luzes, cores e coragem apresentado em algumas ruas reservadas das cidades. Uma legião de guerreiros, mais conhecidos como espadeiros, usam roupas e proteções especiais, como uma espécie de armadura, para soltar espadas e brincar com elas e exibir suas habilidades com o artefato, um verdadeiro show de luzes.

A Polêmica

Em 2011 uma decisão judicial teria proibido a tradicional Guerra de Espadas na cidade de Cruz das Almas. Embora seja tradição na cidade o fabrico e queima  das Espadas é considerado ilegal pela Justiça. O Ministério Público da Bahia pediu proibição alegando risco à população, o que não foi suficiente para deter os espadeiros que manusearam livremente pelas ruas de Cruz das Almas no ano passado.  A favor da queima das espadas, organizaram uma manifestação em frente ao Fórum e neste ano a manifestação tomou grandes proporções, que chegaram a chamar a atenção da mídia nacional. O objetivo da manifestação era a “Não Proibição e Sim a Regulamentação”, não deixando acabar a tradição.

(FONTES: Mídia Reconcavo; http://www.enadiocareca.com.br/2013; http://www.zederocha.blogspot.com.br/2011; http://www.skyscrapercity.com/jhunyor, 2010)