RÉGUA E COMPASSO

Muitas vezes a necessidade faz as pessoas submeterem-se à condições muito aquém do mínimo necessário para o exercício do seu trabalho. Acordar e partir para o seu posto de trabalho com algum grau de satisfação é fundamental para o serviço se desenvolver a contento e render aquilo que se espera dele. O Régua e Compasso, acreditando que todos, mesmo fora das salas de aula, tem algo a ensinar, navega por águas do cotidiano e da vivência, colocando situações que só a “escola vida”, com todo seu didatismo, poderá ministrar.

Somente hoje, com a evolução do conhecimento, pôde-se ter a real dimensão do significado da qualidade de vida, nos mais diferentes setores ou atuações profissionais. Neste sentido, os debates em torno da saúde do trabalhador, doenças ocupacionais, qualidade de vida e satisfação no trabalho ganharam corpo diante das novas descobertas científicas e do rendimento esperado nos postos de trabalho.

Essas primeiras linhas são para chamar a atenção do leitor a respeito de fatos que nos ocorrem com certa frequência, ou que pelo menos tenha ocorrido no passado. O mais importante é aperceber-se disso. Em finais dos anos 1970, conheci Antônio S. Sousa (in memorian), apelidado de Lombada. Ele trabalhava como ajudante de serviços gerais em um cinema da Cruz das Almas daqueles tempos, mas o conheci como agente de portaria daquela empresa, pois passou a substituir o funcionário anterior, que havia se demitido. Assim, permaneceu por 18 anos, somados os dois serviços na Casa. Eu e mais alguns amigos adorávamos ver os filmes exibidos nas tardes de domingo, e até me acostumei com o Lombada, que estava sempre de prontidão na catraca da entrada, recolhendo os bilhetes e liberando a passagem para a sessão de logo mais. Com frequência, via a forma desrespeitosa com que era tratado pelos jovens que desejavam entrar naquele estabelecimento sem ter adquirido antes o seu ingresso, ou seja, assistir ao filme de graça. O tratamento hostil e as ameaças de agressão eram comuns, já que ele não cedia às pressões daquele público e porque ele trabalhava sozinho. A ousadia era tão grande que alguns se arriscavam a pular a pequena mureta que separava a parte interna e externa daquele local. Quando Lombada corria para tentar impedi-los, abandonando a catraca, um outro grupo saltava pela catraca. Trabalhar naquelas condições era realmente um inferno. A sala de exibição vivia lotada, mas vários não apresentavam o ingresso.

O proprietário do cinema preocupava-se com a baixa renda obtida, mas colocava a culpa sobre a portaria. Nos dias de hoje seria muito difícil que um trabalhador se submetesse a tamanho sofrimento no local de trabalho, e onde teria que, além de realizar seu serviço normal, exercer o papel de segurança. Lombada sempre foi um homem pacato, mas tinha que fazer “cara de mau” diante dos insultos que lhes eram dirigidos. Todavia, fazia o que era necessário para manter-se no serviço, já que ali estava a sua sobrevivência, era ali que ele ganhava o seu sustento, mesmo sem a necessária carteira assinada. A necessidade o fez permanecer ali por todo aquele tempo. Imagino o estado emocional desse homem, sabendo que no dia seguinte seria igual ou pior que aquele.

Até pouco tempo achava que já tinha falecido, mas contente fiquei em saber que ele estava bem vivo, criado sete filhos e de bem com a vida, aos 74 anos. Fui até sua casa no Bairro Sorriso, conversamos um pouco e vi que não guarda qualquer mágoa daquele passado. Contou que ao deixar o trabalho no cinema em 1980, passou a trabalhar na Prefeitura Municipal de Cruz das Almas, onde se aposentou. Assim, ele nos deixa um exemplo de superação na luta pela sobrevivência, mesmo naqueles tempos difíceis, nos quais sequer se pensava em saúde do trabalhador, segurança do trabalho e qualidade de vida. Infelizmente, Lombada nos deixou no dia 13 de janeiro do corrente ano, deixando um exemplo de perseverança para todos que desanimam diante de qualquer dificuldade na vida.

(Crônica da série RÉGUA E COMPASSO de Zé Moraes.)

Publicado por Edisandro Barbosa Bingre

Paulistano de nascimento, mas radicado em Cruz das Almas desde o início dos anos 80, o que o levou a desenvolver um grande amor por esta terra. Escritor, Professor, Técnico em Agropecuária, estudante de Gestão Pública, Cerimonialista e Servidor Público Municipal.

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