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UMA CRÔNICA DE ZÉ MORAES – 1

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Devolva o chapéu do rapaz! Você o conhece? Essas foram as primeiras frases salvadoras, proferidas por aquele homem, que já fazia história em nossa cidade. Esse início de conversa faz parte do relato de um cidadão cruz-almense, que se sentiu aliviado pela providencial intervenção do seu conterrâneo Antonio Santos Anunciação, conhecido de todos como Tonhe Piaba.

Pois, Tonhe Piaba ia chegando naquele bar, em dia de carnaval, poucos minutos depois do nosso amigo ter seu chapéu subtraído por um inconveniente indivíduo, que se pusera a dançar freneticamente, posando com aquele chapéu, que não era seu. Certamente, estava doido pra arrumar confusão com alguém. Embora o pacato cidadão, como diria o saudoso Silvestre Caldas, apelasse para que a referida peça lhe fosse devolvida, o sujeito desavergonhado se negava a devolvê-lo. Tonhe Piaba, já no interior do bar, sentou-se à mesa do nosso amigo, o qual não escondia seu desassossego. Ao tomar conhecimento do que acontecera, Tonhe Piaba proferiu aquelas palavras, lá do início do texto. “Mas eu só estava brincando”, justificou o elemento. “Devolva, já disse”, ordenou Piaba.

Na verdade, esses episódios envolvendo Tonhe Piaba (in memorian) iam se tornando cada dia mais comum, pois essas atitudes faziam parte de sua personalidade. Interessado em sua história, busquei entrevistá-lo, mas o seu falecimento aos 79 anos de idade não permitiu. Inclusive já havia falado a respeito com seu sobrinho (Celso Oliveira), e por duas vezes não consegui encontrá-lo, ou porque já havia saído do local que costumava frequentar, ou porque não teria aparecido no local naquele dia.

Pessoa do bem, desde cedo ajudava seu pai (Pedro Santos) no serviço de panificação, em padaria da Praça da Bandeira. Aliás, a sovação diária da massa dos pães seria a provável razão dele apresentar fortes mãos, as quais abertas e levantadas, desciam com grande ímpeto, lhe proporcionando êxito nos embates que travava. Entretanto, esses não eram o único recurso contra aquele que o desafiasse. Piaba também era meio que autodidata no jogo na capoeira, lhe conferindo molejo e muito boa esquiva. Além do mais, ele sabia combinar muito bem suas habilidades: o molejo, próprio da capoeira, o livrava dos golpes adversários. Em seguida, suas mãos entravam em ação, “liquidando a fatura”.

Assim, sua fama corria rápido pela cidade, e isso incomodava muita gente, que desejava pô-lo à prova, caso houvesse oportunidade para tal, ou não, já que, do nada, surgia um desafiante desconhecido, mesmo sem motivo algum, apenas desejando derrotar o tio de Celso Oliveira, e pegar a fama para si. Baum Silveira, antigo morador da rua dos Poções conta que sempre quis vê-lo em ação, mas não conseguia. Até que, por pura sorte, ia passando pela praça do Lavrador, e deu de cara com um sujeito que, aos berros, gritava: “quero ver se você é esse homem todo que todos dizem que você é, Piaba” . O nome Piaba o fez correr para o local onde aquela confusão iniciava. Segundo ele, Piaba estava sozinho, debruçado sobre o balcão daquele bar e o desafiante estava à porta de entrada, falando alto e lhe dirigindo impropérios. Aliás, o valentão já aguardava por aquele momento há tempos. Piaba, já acostumado a essas situações, calmamente, afastou-se do balcão e, com o pé direito, empurrou algumas cadeiras para o canto. Virou-se para o inoportuno desconhecido, abrindo as pernas, cruzando os braços e fixando o olhar, sem dar uma palavra.

O cabra já espumando, investiu pesadamente contra o nosso herói que, aparentemente, não estava suficientemente aquecido para a iminente peleja. Ledo engano. Os movimentos eram muito rápidos, então quem assistia a cena podia perder algum lance interessante, caso desviasse o olhar por alguns segundos. A cada investida, uma esquiva e um forte tapa na cabeça, numa sequência invariável, mas que era dotada de movimentos que deixavam o opositor tonto e dolorido. Essa combinação de golpes nunca o deixou em maus lençóis. Ao contrário, lhe rendia grande sucesso, inclusive quando chegou a enfrentar cinco homens de uma só vez. Esses enfrentamentos se davam tão somente pelo senso de justiça, na tentativa de defender os mais fracos e injustiçados, ou então porque o desafiavam. Não era, de maneira alguma, desordeiro ou desrespeitador. Na verdade, era companheiro e de bom trato, contrastando com o perfil apresentado anteriormente.

(Uma crônica da série RÉGUA E COMPASSO de Zé Moraes.)

Por Edisandro Barbosa Bingre

Paulistano apaixonado por Cruz das Almas, desde o início dos anos 80 quando aqui veio morar, o que o levou a desenvolver um grande amor por esta terra. Escritor, Professor, Técnico em Agropecuária, estudante de Gestão Pública, Cerimonialista e Servidor Público Municipal.

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