O DISCURSO DO TROTE

Trote dos Calouros

A festa do calouro, celebrada anualmente a 13 de maio, (…), é o acontecimento social de maior repercussão na cidade. Dividida em duas partes: pela manhã o desfile e, à noite, a festa dançante, durante a qual são conferidos, sob juramento, diplomas aos “burros”. É realmente, um dia festivo esse da confraternização de veteranos e calouros, sob o patrocínio da sociedade local. Partindo do alojamento, o desfile termina na praça principal da Cidade, onde é recebido entre aplausos e risos provocados pelas charges que graças a Deus, podem ser lidas pelas famílias.

Professores, políticos, fatos locais são satirizados. Há professores com lugar permanente nessas brincadeiras. Eu sou um deles. Já tive a minha fase de evidência; ultimamente ando esquecido. Mas a festa do calouro, no tempo em que se resumia apenas num trote violento, transformou-se num dia de tristeza para a Cidade e, principalmente, para a Escola de Agronomia. Tudo por causa de uma frase infeliz, intercalada no discurso que deram a um calouro, para ser lido no coreto. Sei que o seu autor, hoje um distinto agrônomo, não teve a intenção de ferir a dignidade da família cruzalmense, mas o fato é que o discurso motivou séria animosidade, quase gerando um conflito de resultados imprevisíveis, separando, embora por pouco tempo, o que antes era um todo, sem linha divisória: A Cidade e a Escola. Aquela exigia uma reparação à ofensa; esta dizendo-se incompreendida, negava-se. Clima tenso, durante alguns dias, entre a população e os estudantes, As “Repúblicas” foram voluntariamente fechadas e os seus ocupantes acamparam na Escola, considerada sitiada. Ninguém saia pelos portões, receando represálias; ninguém entrava na Escola, pequena praça de guerra, porque se entrasse sem autorização, ficaria prisioneiro. Do Rio de janeiro, pelas ondas da Radio Tupi, veio, certa noite um apelo à população da cidade, pedindo uma melhor compreensão para os excessos dos rapazes. A situação que se agravara, não podia perdurar. Um grupo de senhoras, tendo à frente D. Maricotinha Dias, parlamentou com as partes, resultando daí o armistício. A cidade encerrou o assunto, paralisando suas atividades durante vinte e quatro horas, em sinal de protesto. O comércio, cerrando suas portas, reabriu-as no dia seguinte, normalmente, dando a impressão de que nada havia ocorrido. O povo, com a dignidade que lhe é peculiar esqueceu o excesso da brincadeira e hoje é esse mesmo povo que recebe em seus lares os estudantes da Escola, com o mesmo carinho e simpatia, prestigiando a festa do calouro.

Esta crônica faz parte do livro Poeira da Gleba, escrito pelo professor Clodoaldo Gomes da Costa, em 1964. Fundador, primeiro diretor e professor do Colégio Alberto Torres, ele foi exemplo de educador pela sua dedicação ao ensino agronômico na Escola de Agronomia, e no colégio Alberto Torres, referência de ensino no interior da Bahia.

(FONTE: Revista Literária REFLEXOS DE UNIVERSOS nº 91 in https://www.facebook.com/ReflexosDeUniversos/photos/a.1549492168395228.1073741852.618529774824810/1549513388393106/?type=3&theater )

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