CHORA BANANEIRA, O BLOCO “DOS QUE NÃO FORAM”.

Pelo 10° ano consecutivo, o Bloco “Dos Que Não Foram”, puxado pelo mini-trio-elétrico, Chora Bananeira, percorreu as ruas de Cruz das Almas neste domingo de Carnaval. A banda formada por ex-músicos do antigo Trio Elétrico Carbasa, que animou os carnavais da década de 80, trouxe em seu repertório as antigas marchinhas carnavalescas, como: ‘Allah-la Ô’, ‘Ó Abre Alas’, ‘ Mamãe Eu Quero’, ‘Cidade Maravilhosa’, entre outras.
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Apesar do esforço dos organizadores, o público que acompanhava a apresentação da banda ainda era bastante tímido, talvez pela ausência dos foliões locais, que nessa época do frequentam o Carnaval de Salvador e o litoral baiano. Sem qualquer apoio do poder público ou agente político, o mini-trio reviveu os antigos carnavais patrocinado por cerca de 17 empresas instaladas no município, a maioria delas de pequeno porte.
O organizador do evento, Marcelo Silva de Andrade, popularmente conhecido como “Marcelo Som”, conversou com o #ForteNaNoticía. “Não foi fácil chegar até aqui, mas nós estamos mantendo o nosso Carnaval vivo na memória dos cruzalmenses”, disse.
(FONTE: GALVÃO, Paulo. in http://www.fortenanoticia.com.br/noticias/13002/mini-trio-chora-bananeira-anima-o-carnaval-em-cruz-das-almas.html , 2017)
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OS CARNAVAIS DE CRUZ DAS ALMAS

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Na linda manhã de domingo desse carnaval os clarins de um Bando Anunciador puxam breves e distantes lembranças de um carnaval que passou,de quando instalava e abria o reinado de Momo na cidade de Cruz. Desde antes do Trio Elétrico Carbasa, que não só ia quem já tinha morrido, blocos de caretas (mascarados de identidade secreta), vestidos de estampados pierrôs tomavam as ruas brincando de importunar as pessoas. Estas em troca retrucavam: Careta cadê a greta? Os mascarados respondiam insolentes antes de saírem correndo: Tá no cú de Marieta!

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Antes e depois das Batalhas de Confetes, Gritos de Carnaval no Cruz das Almas Clube, bailes no Mercado, na Sociedade dos Artistas, na Euterpe, o Carnaval aterrissava na Praça Senador Temístocles, tudo era alegria que só o espirito do carnaval daquela época sabia dosar na nossa alma gentil. No meio da tarde do domingo o desfile (corso), dos carros enfeitados, entre centenas de foliões rodando os passeios dos jardins, espalhados por toda praça cruzada de serpentinas atiradas dos cordões, blocos, mascarados, Bumba meu Boi (de André?), bicicletas transformadas em navios de papel crepom, chapéus de capitão, bailarinas, melindrosas, índios e cowboys de calças FarWest, cornetas, apitos, bisnagas em forma de bananas cheias de água vendidas nas barraquinhas, vendedores de rolete traduziam nossa festa.

A charanga chupa catarro animou o desfile do alfaiate Davino no cordão “Bebê Chorão”, de andador, vestido de bebê, bico da boca e chocalho nas mãos. Ahh como a gente se perdia nas evoluções rítmicas dos instrumentistas, das cuícas e pandeiros, dos sambistas e passistas traçando passos e estandartes no ar no da Escola de Samba de Leonel Bambá de pernas tortas tê-a-tá e apito na boca ordenando rigoroso a qualidade do samba. (Pena não saber um único nome daqueles remanescentes, só do ex padeiro Tonho Piaba)
A memória ainda não esqueceu o bloco dos Caboclos. Seus integrantes homens, mulheres e crianças apareciam pintados, traços vermelho ocre terra marcavam seus corpos e faces. Cabelos cumpridos, negros, luzidios. Adornos, pulseiras, colares e tangas coloridas (de penas? panos?). Quem são essas pessoas? Vieram de onde? É uma verdadeira tribo de índio ou? Os Caboclos confundiram em mim, a fantasia do carnaval com a realidade fantástica, para sempre.carnaval-1967
Durante os dias de carnaval armavam suas tendas de palha no areal do Beco do Cinema. Aí a tribo se arrumava, aquecia seus tambores de couro de cobra, organizava seu desfile e partiam para exibição em redor do grande quadrilátero, no solo coalhado de confetes para desaparecerem sob a luz das gambiaras e da lua artificial lá do céu, por que era (é), carnaval.

Segundo as pesquisas do doutor em geografia pela UFBA e professor da UNEB – Jânio Roque Barros de Castro, até a década de 1970, o carnaval de Cruz das Almas era a maior e mais importante festa em espaço público da cidade, sendo considerado como um dos mais tradicionais do interior da Bahia. Durante os dias do carnaval diversas manifestações culturais se apresentavam em praça pública, como a Marujuda, ternos diversos, burrinhas, zabumbada, bumba-meu-boi, caboclos, afoxés, rodas de samba, grupos de mascarados, blocos de índios, batucadas, pranchas e outras. bloco-carnaval-vitoria

No carnaval cruzalmense, os blocos utilizavam as “pranchas” que eram caminhões enfeitados e animados por grupos musicais; essa modalidade de carro alegórico se deslocava devagar pela praça da cidade, carregando garotas vestidas de princesas, com trajes de época ou mesmo com fantasias carnavalescas. Os carros eram ornamentados, coloridos e criativos. A cada ano optava-se por uma determinada composição estética diferente. Era comum homenagear os elementos da natureza envoltos em seres míticos, como o peixe voador, as fadas, a cigarra gigante, entre outros.
corsoJá o terno no passado era um tipo de bloco carnavalesco no qual um grupo de pessoas se vestia de forma igual para brincar o carnaval. O terno de Reis era ritual religioso e lúdico, enquanto que os ternos de carnaval eram práticas profanas sem conotação religiosa, a exemplo dos ternos de cão, nos quais as pessoas se pintam de preto e saiam dançando de forma irreverente pela cidade, uma prática ainda existente na festa do Senhor do Bomfim de Muritiba,no Recôncavo baiano. Dentre os ternos de Reis mais tradicionais de Cruz das Almas na década de 1950 e 1960, pode-se citar o terno da senhora Abigail (conhecida como Dona Dadinha).
cac-2Na década de 1950, um jornal local de Cruz das Almas já destacava a importância regional do tradicional carnaval nos clubes. Nessa época, não havia uma preocupação sistematizada com uma eventual concorrência assimétrica com o carnaval de Salvador, porque muitas pessoas da capital baiana se deslocavam para passar o período carnavalesco em cidades do interior, que realizavam essa festa popular, como Cachoeira e Cruz das Almas.

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Castro, ainda salienta em suas pesquisas, que a partir da segunda metade da década de 1970, as manifestações lúdicas/culturais do carnaval de Cruz das Almas desapareceram, permanecendo apenas os blocos de carnaval no entorno dos trios elétricos. Dentre esses trios, se destacaram o Carbasa e o Estrelar.
NOTA DO EDITOR : [E, desta mesma época, destaque para os blocos, que já não usavam mais fantasias, mas as mortalhas e, depois, macacões: Liga Lá, Xeirando Ela, Os Marroquinos…]

No final dos anos 1980, com a extinção do carnaval, os trios resistem a reengenharia da prática festiva urbana e aparecem centralizando as práticas festivas nas micaretas (carnavais fora de época) de 1989 e 1990, promovidas pela prefeitura local, fenômeno, também existente em outras cidades da Bahia nesse período.

(FONTES : CASTRO, Jânio Roque Barros de. Da Casa à Praça Pública – A Espetacularização das Festas Juninas no Espaço Urbano. Salvador: EDUFBA, 2012, pp. 170 e 315. ; MACHADO, Angela. in CRUZ DAS ALMAS – FOTOS ANTIGAS  https://www.facebook.com/groups/454314041343397/?fref=ts ;  PINTO FILHO, Renato Passos da Silva. Cruz das Almas dos meus bons tempos. Salvador: Bureau, 1984)

ASSOCIAÇÃO ESPÍRITA OBREIROS DA FRATERNIDADE

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A Associação Espírita Obreiros da Fraternidade de Cruz das Almas faz aniversário de fundação neste mês de fevereiro e tem uma história muito bonita, confira:

O ENFERMEIRO ANÔNIMO

Cícero Nazareno nasceu no sítio Araçá, município de Cruz das Almas, no dia 08 de dezembro de 1875. também era conhecido por Cícero Caramelo, porque andava com caramelo no bolso e dava-os às crianças.
D. Almerinda Sampaio, sua vizinha, atualmente com 94 anos, recorda que ele veio para a cidade e passou a residir com dois filhos do primeiro casamento, num quartinho situado no fundo da sua residência na rua da vitória, hoje denominada Rua Manoel Vilaboim,. Depois seus filhos viajaram e ele ficou sozinho. Era pobre e quando sabia que alguém estava muito doente, espontaneamente, ia à procura e tomava conta até a morte. Pacientemente, rezava o enfermo com ramos de “Maria Preta” e “Vassourinha”. Dava remédio, alimento e até banho, se fosse necessário. Quando o doente morria e a família não tinha condições, providenciava o funeral com o auxílio da prefeitura. Ele rezava a todos que o procurava. Quando um menino torcia o pé, com muito jeito, ele puxava e colocava no lugar. Certa vez, Vanderlino, um dos filhos de D. Almerinda, torceu a perna, atendendo ao pedido da mãe da criança, ele rezou três vezes e o menino ficou muito bom. Seu segundo casamento foi com uma senhora que chegou aqui e vivia pedindo esmola. Ele a amparou e depois se casaram.
D. Albertina França, também sua vizinha, contou-nos que ele ajudava demais os pobres. Se alguém precisasse, ele saia pedindo até conseguir a cama, o colchão,  e a roupa de cama. Uma vez, chegou a Cruz das Almas uma senhora com câncer. Naquele tempo esta doença ainda não era conhecida. Ela ficou alojada onde hoje é o mercado publico. Ele cuidou dela até o enterro. Ele só fazia o bem… “Era um espírito de luz”.
Segundo o barbeiro Ademar Coelho Velame, Cícero Nazareno era um homem caridoso. Sua vida era labutar com tuberculosos, mulheres que tinham filhos à toa naquelas casas velhas, levar café para um, água para outro e rezar. Viriato, o chefe da barbearia, era quem dava as coisas para ele levar. Dr. Luís Passos, prefeito na época, tomou conhecimento do que ele fazia e passou a ajudá lo, inclusive dando lhe uma casinha, aproximadamente em 1940. Atendendo ao pedido de Viriato, Dr. Luís Passos colocou o nome dele na rua onde estava morando na sua nova casa, que por sinal foi a primeira desta rua. Se uma pessoa pedisse para levar uma encomenda, ele fazia de boa vontade. Uma vez, alguém lhe pediu para levar 5 quilos de carne em sua casa. Naquele tempo, não existia saco plástico. Ele ia com a carne pendurada em palha de licuri, e na frente da Igreja, uma moça o atropelou com a bicicleta. Ele caiu para um lado e a carne para o outro. Mesmo assim, não deixou de fazer a entrega. O homem não parava. Onde mandassem ele ia. Nasceu com aquele dom. Fazia de coração, não era por boniteza e nem esperando recompensa. Não tinha emprego e não pedia para si. Se alguém desse algum trocado, ele recebia. Morreu tuberculoso… Vivia tratando pessoas doentes, não se alimentava direito e naquele tempo não existia Penicilina. Depois de longo período acamado, foi levado para a Santa Casa de Misericórdia onde faleceu a 18 de fevereiro de 1950, seu enterro também foi realizado com a ajuda da Prefeitura e dos seus amigos.
Em 1961, D. Terezinha Nunes, afligindo se com problemas espirituais e não encontrando Centro Espírita em Cruz das Almas foi à vizinha cidade de Cachoeira. Lá, freqüentou o Centro Espírita Obreiros do Bem por alguns meses e iniciou o desenvolvimento da mediunidade. Numa das reuniões, o espírito Cícero Nazareno, através do médium chamado Félix, orientou que Cruz das Almas precisava de um Centro Espírita  e ele iria ajudar nos trabalhos. Com a colaboração dos espíritas de Cachoeira, no  dia 1º de fevereiro de 1963, os espíritas cruzalmenses fundaram  a Associação Espírita Obreiros da Fraternidade. Logo no inicio das atividades desta instituição, ele se comunicava através da médium Amélia Vitena.Realizou muitas curas e sempre afirmando que desejava continuar o seu trabalho de rezador. Devido a sua abnegação, os fundadores da Associação Espírita Obreiros da Fraternidade o adotaram como mentor da casa.  Era um senhor de cor escura, barba grande e devoto de nossa senhora. Usava um paletó e um cajado na mão. Dava a aparência de um monge. No início das comunicações mediúnicas, repetia a mesma frase que pronunciava ao se aproximar de um enfermo:

“Levantei de manhã cedo,
Para varrer a conceição,
Encontrei Nossa Senhora,
Com o rosário na mão.”

Andava com sandálias grandes e com roupas folgadas por não terem sido confeccionadas sob medidas para seu corpo.

(FONTE: Mauto Diniz. Revista Cruz das Almas Espírita. Jan. a Dez. 2006. Ano 12. Nº 23/24.)