A SUMAÚMA

Sumauma

Sabia que a árvore Sumaúma, no parque de mesmo nome localizado no Bairro Lauro Passos, foi tombada pelo Município em 2007? Mas calma! Isto quer dizer que, desde então, oficialmente ela faz parte do TOMBO, ou seja, do Patrimônio Ambiental do Município de Cruz das Almas.

Dizem ainda que a árvore Sumaúma, que dá nome ao Parque no bairro Lauro Passos, foi um presente de Hélio Passos para seu irmão Lauro Passos que completara 50 anos de idade. A muda parece ter vindo da Praça Campo Grande, de Salvador para a frente da Fazenda Bonsucesso.

Sumauma3

Árvore da família das bombacáceas, a mesma da paineira e da munguba, a sumaúma (Ceiba pentandra) atinge cinqüenta metros de altura e é também conhecida por sumaumeira, árvore-da-lã, árvore-da-seda ou paina-lisa. Tem folhas digitadas, sustentadas por pecíolos longos, e dá flores brancas, campanuladas.

As raízes tabulares, ou sapopemas, que se desenvolvem como largas escoras ao redor da base do tronco, ajudando a sustentá-lo, são a característica mais marcante da sumaúma, uma das árvores mais imponentes da América do Sul, encontrada em estado espontâneo por toda a região amazônica.

Os frutos, grandes cápsulas com até trinta centímetros de comprimento por cinco de diâmetro, encerram numerosas sementes envolvidas por um tufo de filamentos sedosos que constituem a paina da sumaúma. Sob o nome de kapok, esta paina, extremamente flexível e de superior qualidade, já foi muito utilizada para o fabrico de salva-vidas e bóias, pois suporta de 30 a 35 vezes seu próprio peso na água. A sumaúma, que em condições naturais nasce em terra firme e nas várzeas, multiplica-se a partir de sementes e é extremamente longeva, pois chega a viver mais de cem anos.

(FONTE: Informações do editor e https://biomania.com.br/artigo/sumauma )

DISCRIMINAÇÃO RACIAL EM FESTA DE MESTIÇOS

Bloco A Cigarra

Bloco A Cigarra

 

Os festejos carnavalescos da cidade, contrariando as expectativas geradas pela evolução do tempo, diminuíram drasticamente com o passar dos anos, chegando ao fim nos dias atuais. Naquela época desfilavam anualmente carros alegóricos, como o “PEIXE VOADOR” de Artur Martins e a família Menezes; a “CIGARRA” da família Maia, tendo em José Maia seu principal artífice; bem como as batucadas de Martim Tuite e de Leonel Bambá, nesta última, Tancredo de Cheleu se destacava como o “Mago da Cuíca”. Os bailes eram realizados em três locais distintos, criteriosamente distribuídos em função das condições econômicas e da projeção social dos participantes. Nos salões da Prefeitura Municipal, dançavam os ricos e principais autoridades com suas famílias; na sede da Euterpe Cruzalmense, dançavam os integrantes da classe média com as respectivas famílias e moças solteiras cuja virgindade não fosse duvidosa; nos salões da Lira Guarany, dançavam democraticamente todos, inclusive as empregadas domésticas. Naquele tempo ainda não existia o “pula pula”, sistema de folia em blocos circulando o salão. Cavalheiros e damas dançavam agarradinhos, seguindo o som ritmado da orquestra, de vez em quando um sussurro romântico no ouvido da parceira, era muito prazeroso e atraente. Bons e maravilhosos momentos que os anos não trazem mais, dos quais só restam gratas e belas recordações.

Em 1942 se realizou um dos melhores carnavais da cidade, com a participação de carros alegóricos, cordões, batucadas e a realização dos tradicionais bailes, Inclusive com exibição de fantasias nos três locais mencionados. Manoel Antonio da Conceição, conhecido popularmente pela alcunha de “CATIFITÉ”, filho primogênito de Maria Luiza Parteira, neto de escravo e genuíno representante da raça negra, condição comprovada pelas características anatômicas e epidérmicas originais de que era possuidor, competente alfaiate, profissão que lhe permitia razoável disponibilidade financeira. Vestia-se elegantemente e era exímio dançarino. No último dia do carnaval daquele ano, a conhecida “Terça-feira Gorda”, ocasião marcante de encerramento dos festejos do Rei Momo, trajou-se convenientemente da cabeça aos pés, conforme a indumentária usada naquela época e deslocou-se na hora aprazada para a sede da Euterpe onde estava se realizando a noitada de folia, cujo baile havia começado, porém nos salões ainda existiam espaços vagos. Tão logo chegou, dirigiu-se à Portaria para a aquisição da entrada no intuito de participar da festa, todavia, surpreendentemente, foi recebido pelos responsáveis do evento com gestos de descaso e rejeição, dizendo-lhe peremptoriamente que havia sido suspensa a venda de ingressos devido o excesso de participantes, justificativa usada como pretexto para excluí-lo da dança. Revoltado com aquele tratamento discriminatório e preconceituoso, arregaçou bruscamente as mangas do paletó e da camisa para expor a pele e apontando para o braço desnudo, verberou com veemência o seguinte desabafo: “ROUPA NOVA, GRAVATA NOVA, CHAPEU NOVO, SAPATOS NOVOS E DINHEIRO NO BOLSO. A DESGRAÇA É ESTA MALVADA TINTA”.

( FONTE: TEXTO DO PROF. LEANDRO COSTA PINTO DE ARAÚJO, via ALYRIO MENDES https://www.facebook.com/alyrio.mendes/posts/679819798731983; FOTO: CRUZ DAS ALMAS – FOTOS ANTIGAS https://www.facebook.com/groups/454314041343397/?fref=ts )

CRUZ DAS ALMAS E O POVO CIGANO

Cigano Serrinha

Cruz das Almas, (…) A cidade é conhecida nacionalmente pelos festejos juninos e, particularmente, pela tradicional (e extinta!) guerra de espadas. Não pode-se determinar com precisão o período em que os primeiros grupos ciganos chegaram, devido a vida nômade que levavam, e muitos grupos, ainda levam. Contudo, estima-se que desde o início do século XX os primeiros grupos ciganos já começavam a circular por Cruz das Almas, atraídos pelo desenvolvimento do comércio. Atualmente estão concentradas inúmeras famílias ciganas em Cruz das Almas, com uma população aproximada de 500 pessoas, as quais estão localizadas, predominantemente, no espaço urbano. Esta população está dividida, basicamente, em seis bairros: Andaraí, Edla Costa, Chapadinha, Fonte do Doutor, Santa Cruz e Rio Branco.

De acordo com Robelito Cordeiro Cardoso, a presença dos ciganos no município de Cruz das Almas é mais marcante a partir dos anos 70, quando seu pai, Raimundo Nonato Cardoso, conhecido como Serrinha, chegou aqui no município por volta dos anos 60, fugindo da seca e escassez de alimentos. Mas, a partir dos anos 70, resolveu definitivamente ficar aqui na cidade, em vista do crescimento que o comércio vinha atingindo e, por conseguinte, o crescimento da própria cidade.

Jair Cordeiro afirma que seus pais andavam de animais e não tinham moradia fixa, mas devido à dificuldade de se locomover para outra cidade, resolveram fixar-se em Cruz das Almas nos anos 70, pois haviam sido acolhidos muito bem aqui na cidade.

No entanto, Cruz das Almas não fugiu à regra e a relação com o povo cigano foi marcada por muita hostilidade, desconfiança, desrespeito e intolerância. Apesar disso, muitas famílias vêm conseguindo, por mais de três décadas, fixar-se no município. Observa-se, ainda que, apesar de manter traços originais de sua cultura, o constante contato com o povo não cigano vem promovendo mudanças em seu universo sócio-cultural, a exemplo do estilo de vestir, a compra de grandes e valorizadas casas no centro da cidade, na freqüência às escolas e até universidades, igrejas evangélicas, etc.

Para Ronaldo Sena (2005) ” a adaptação dos ciganos às novas conquistas tecnológicas não fere muito suas tradições”. Em Cruz das Almas, apesar de poder falar em transformações na cultura, percebe-se também que as tradições ciganas são fortemente preservadas, muitas mulheres pensam assim: “Apesar de ter construído várias casas ainda prefiro morar na minha tenda”.
Compreende-se que a pesquisa histórica sobre ciganos encontra forte obstáculo no tangente às fontes documentais, este trabalho priorizou as fontes orais e iconográficas, por entender também que esses recursos são apropriados para revelar o universo cultural dessas comunidades.

(FONTES: http://www.webartigos.com/artigos/o-segredo-dos-degredados-estudo-da-cultura-cigana-no-municipio-de-cruz-das-almas/22948/#ixzz48S2AfrdX ; FOTOwww.vidaciganalielzalordelo.com )

ANTIGA ESTAÇÃO FERROVIÁRIA

Estação Cruz2

A Estação de Pombal foi aberta pela E. F. Central da Bahia na sua linha principal, em 1881. Mais tarde o nome foi alterado para Cruz das Almas. Desta estação, que ficava a 6 km do centro do município, deveria sair uma variante que uniria a linha à estação de Santa Teresinha, na mesma linha, atravessando o rio Paraguassu mais para o sul, eliminando o gargalo da ponte entre Cachoeira e São Félix. Esse era o projeto dos anos 1960, que nunca foi construído. Ferroviários da região dizem que a estação recebeu muito cimento vindo de Minas Gerais por via ferroviária nos anos 1970. Ela fica próxima da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia, que é situada na entrada rodoviária antiga da cidade. A partir de 1970, a lista de estações no Guia Levi já não mostra a estação de Cruz das Almas, mas sim uma estação chamada de Eng. E. Macedo, comumente chamada de Eurico Macedo, que é a mesma – a falta de documentação não permite a confirmação, mas o prédio tem arquitetura dos anos 1930 e o fato de ter sido construída uma nova estação mais próxima à cidade também com o nome da cidade (na linha de Santo Antonio de Jesus, aberta no final dos anos 1950 e erradicada em 1964) levam à quase certeza que a estação mais afastada tenha trocado o nome. “Dá medo visitar a estação Eurico Macedo, é um lugar isolado, não existe absolutamente ninguém; para andar na linha, só quando se acha alguém do lugar que sabe exatamente onde ela fica. Passei em lugares em que mal cabe o trem, não tem vias marginais, só mato e trilho, e se o trem passar no momento exato, aí complica” (Roosevelt Reis)

(FONTES: Lorena Silva Santos; Roosevelt Reis; Cyro Deocleciano R. Pessoa Jr.: Estradas de Ferro do Brazil, 1886; A Leste Brasileiro e o Desenvolvimento Econômico da Bahia, 1960; IBGE: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XX, 1958; Guia Geral das Estradas de Ferro, 1960; Mapa – acervo R. M. Giesbrecht, via http://www.estacoesferroviarias.com.br/ba_monte%20azul/cruzalmas.htm )

ESTÁDIO “BARBOSÃO”

Estadio_Barbosao_Cruz_Das_Almas_Ba

Estádio Municipal Carmelito Barbosa Alves, apelidado de Barbosão, localizado no município de Cruz das Almas, possui uma boa estrutura como gramado, alambrado, vestiários, cabine de imprensa e arquibancada com capacidade para 8.000 espectadores. Já foi considerado pela Federação Baiana de Futebol a 3ª praça esportiva do Estado da Bahia. Já foi também o mando de campo do Cruzeiro Futebol Clube. Construído na gestão do Prefeito Carmelito Barbosa Alves, com recursos próprios do município,  foi inaugurado em Julho de 1988, por ocasião do aniversário da cidade, numa partida válida pelo Campeonato Baiano de Futebol entre o Leônico e o Fluminense de Feira que terminou empatada sem gols. Já sediou diversos torneios e campeonatos municipais e estaduais, além de já ter sido palco de muitos shows artísticos. Atualmente é a sede dos jogos da seleção cruzalmense pelo Campeonato Intermunicipal de Futebol Amador.

(FONTE: https://pt.wikipedia.org/wiki/Est%C3%A1dio_Municipal_Carmelito_Barbosa_Alves ; Inventário Turístico de Cruz das Almas, Andréa da Silva Conceição e Clarissa Lordelo)

O PRIMEIRO JORNAL

O Jornal Nossa Terra, semanário fundado em julho de 1954, tendo como diretor o jornalista Verdival  Pitanga, com redação na rua J.B da Fonseca, foi o primeiro jornal a circular na cidade. Teve uma influência muito grande na Cultura cruzalmense, pois através dele se destacaram muitos escritores, poetas, cronistas que, se não fosse a presença desse jornal, por certo estariam ainda hoje desconhecidos.

(FONTES: http://educacaocruz.blogspot.com.br/p/cidade.html ; LIVRO DO CENTENÁRIO, Alino Matta Santana)

O JORNAL DO PLANALTO

Jornal do planalto Capa

Jornal impresso cruzalmense, fundado por Fernando Floriano Rocha e Hermes Peixoto em 21 de agosto de 1971. Desde então vem registrando os principais acontecimentos no Recôncavo da Bahia. Seu raio de circulação abrange atualmente quatorze municípios: Cruz das Almas, Sapeaçu, Castro Alves, Conceição do Almeida, São Felipe, Governador Mangabeira, Muritiba, Cachoeira, São Félix, Maragojipe e Conceição da Feira. Após ter se consolidado como o principal jornal de Cruz das Almas, o Jornal do Planalto aposta em inovações para o leitor e para os anunciantes: em 2013 havia também uma versão digital do Jornal do Planalto disponível na web que era produzida em Cruz das Almas e que, tal qual a versão impressa, reunia artigos, entrevistas e matérias sobre os principais fatos ocorridos no Recôncavo.Sua tiragem impressa é de cinco mil exemplares distribuídos nas quatorze cidades, numa periodicidade mensal. Propõe-se como uma mídia forte, imparcial e moderna. Atualmente seu editor-chefe é o Mário Araújo dos Santos.

(FONTES: www.cruzdasalmas.com.br/hermes/ ; http://jornaldoplanalto.blogspot.com.br/ ; JORNAL DO PLANALTO, pág. 2, Fevereiro de 1992)

 

GALENO D’AVELÍRIO, NOSSO POETA MAIOR.

Galeno1

Agnelo Gonçalves de Oliveira, o Galeno D’Avelírio poeta, orador, cronista, teatrólogo e jornalista, cruzalmense, nasceu na fazenda situada na Ladeira Bonita em 14 de dezembro de 1892 e casou-se com a também cruzalmense Anita Gonçalves da Silva em 1917. Não teve filhos, mas criou várias sobrinhas, destacando-se entre elas, por ter vivido mais tempo com o casal, Diva Gonçalves Rocha.

Galeno2

Galeno e sua amada esposa Anita

Fez o curso primário com o Professor Mata Pereira, com quem destacava-se como aluno. Após o curso primário, como não havia ginásio em Cruz das Almas, seguiu para Salvador a fim de tentar os estudos e trabalhos. Já nessa época, era um ávido leitor. Mas devido às dificuldades financeiras para manter-se na capital, teve que voltar para Cruz das Almas e passou a morar na Rua da Vitória. Ali começou a trabalhar com Artur Silveira na compra de fumo em folha para posterior venda aos enfardadores e armazéns de fumo para charuto. Em consequência dessa nova atividade e de seu desenvolvimento neste ramo de negócio, teve de mudar-se de sua terra natal, em busca de uma melhor colocação e por causa de uma oportunidade que surgira. Um tio de sua mulher, que era grande enfardador de fumo na cidade de Sapeaçu, chamado Elpídio Batista Magalhães, mandou-o para a cidade de Rui Barbosa para lá trabalhar.

Cabe aqui um pequeno, mas valioso, parêntese para transcrever as palavras de Galeno referindo-se ao deixar Cruz das Almas, sua terra amada:

“Raia a manhã exuberante de luz, vivificadora e alegre…

Um auto fonfona à porta, roquenho e impertinente

é que vou deixar Cruz das Almas, a terra querida do meu berço

em demanda de outras plagas amigas

embora, porém menos queridas que as da terra onde nasci,

esse ninho que me aquece nas geadas da vida…”

Lá no sertão, Agnelo abriu um armazém de “secos e molhados” que também era um ponto de compra de fumo. Periodicamente, o resultado de suas compras de fumo era transportado de trem para Sapeaçu, onde seu Elpídio enfardava o fumo para os grandes armazéns e exportação.

Mas, o negócio de fumo nunca foi o seu forte; queria sair dele.

Finalmente, surgiu o Cartório de Feitos Cíveis e Criminais que Agnelo comprou, lutando muito a seguir para se efetivar no cargo. Trabalhou no cartório por vinte e oito anos, aposentando-se em 1946, dois anos depois de uma lei de Getúlio Vargas que lhe permitiu aposentar devido a doença de que foi acometido, ainda que não tendo tempo suficiente para aposentadoria. Mesmo após a aposentadoria, permaneceu em Rui Barbosa por mais sete anos, isto é, até 1953, esperando que sua esposa também se aposentasse, pois ela era escrivã do Juri e das Execuções Criminais, naquela mesma cidade.

Galeno D’Avelírio era também um político fervoroso. Membro do antigo PSD de Rui Barbosa. Formou, ao lado de Cícero Alencar, um dos maiores caciques políticos do interior baiano. Em Castro Alves, formava com outro grande líder, que foi Rafael Jambeiro, também do PSD. Em Cruz das Almas, participou de várias campanhas políticas, pelo mesmo Partido, porém sem nunca ter se candidatado a cargo eletivo.

Como jornalista, foi figura sempre presente nas páginas do jornal Nossa Terra, em Cruz das Almas; O Castroalvense, em Castro Alves; e O Itaberaba, em Itaberaba. Colaborou ainda, através de crônicas e poesias, para os seguintes jornais: Diário de Notícias (Salvador), A Palavra (Rui Barbosa), O Eco (Juazeiro), O Rádio (Jaguaquara), O Paládio (Santo Antonio de Jesus), A Verdade (S.Gonçalo dos Campos), O Correio (São Félix), O Pequeno Jornal (Cachoeira); O Juazeiro (Juazeiro), A Razão (Jaguaquara), dentre outros.

Ainda como jornalista, editou o O Serventuário da Justiça, órgão de defesa da classe dos serventuários da Justiça, de onde partiram reivindicações que, após atendidas, representaram grande progresso para a classe, da qual ele também fazia parte.

Mantinha estreita amizade com os poetas baianos de sua época, entre os quais destacamos Pedro Barros e Carlos Chiacchio.

Geralmente como acontece com os gênios, foi também marcado pela fatalidade, pois, ainda jovem, foi acometido de um derrame que o deixou paralisado de um lado do corpo. Instalada a doença, não se acomodou; pelo contrário, fez muitos tratamentos em Salvador com vários médicos. Mas, o que foi mais importante, é que em nada foi afetado o seu cérebro; tanto assim que até o fim da vida permaneceu com sua inteligência brilhante a premiar todos aqueles que tiveram a felicidade de conviver com ele, ou que granjearam a ventura de ler suas obras, muitas inéditas.

Veio a falecer na casa de nº 522 da Praça Senador Temístocles (Praça da Matriz), em sua querida Cruz das Almas, vitimado por um câncer da carótida, no dia 12 de maio de 1955.

Galeno D’Avelírio não deixou nenhum livro publicado, mas suas principais obras poéticas, ainda manuscritas, constam de centenas de poesias reunidas em oito volumes, sendo um intitulado Poemas, outro Versos e os demais são Poemas 1,2,3,4,5 e 6. Tais obras, atualmente, estão sob a guarda da Fundação Cultural que leva o seu nome e, portanto, fazem parte do seu acervo.

(FONTES: LIVRO DO CENTENÁRIO, Alino Matta Santana e FUNDAÇÃO CULTURAL GALENO D’AVELÍRIO)

ESTÓRIAS DO CRUZEIRO DAS ALMAS – LIVRO 1

FOTO DA CIDADE 5

É incomum Cruz das Almas
Uma cidade chamar.
Quem não sabe se espanta
E se põe a perguntar:
Se a cruz é o sofrimento
Das almas a se queimar?

História e lenda se mesclam
Para o nome explicar,
A história é portuguesa,
A lenda foi um rezar,
Dos tropeiros, no descanso,
Das lides de viajar.

A história diz que um portuga
Aqui chegou, bem ou mal,
Fincou morada nas terras
Lembrando de Portugal.
Chamou Cruz das Almas o sitio
Em honra à terra natal.

E realmente existia
Nas terras de Portugal
Uma cidade chamada
Cruz das Almas, e afinal
Eis ai a explicação
Para o sobrenatural.

Manuel o português,
Parece até gozação
E era Caetano Passos
Um sobrenome de ação
Adotou a terra agreste
Como o seu novo rincão.

Se é verdade eu não sei
A névoa da dúvida existe.
Se foi ele ou outro foi,
Nos livros inda persiste,
A memória não registra
E o historiador fica triste.

E a lenda o que é que diz
Para explicar este nome?
Mario e Alino Santana
Escritores de renome.
Dizem: “cruz vem de cruzeiro”
E assim a duvida some.

Os homens eram tropeiros
Que transportavam riquezas
De São Felipe à Cachoeira,
Nas mulas nas redondezas.
Chegavam aqui à noitinha,
Cansados, mas sem tristeza.

Descansavam os animais,
Davam milho no embornal.
Queimavam velas pras almas,
Para espantar o mal,
Que na escuridão da noite
Poderia ser fatal.

Sob árvores frondosas
Acendiam as velas, primeiro,
Ajoelhavam e rezavam
Para as almas no cruzeiro,
Ali fincado e sozinho
Como um santo padroeiro.

Este cruzeiro ficava
Lá na “Estrada de Ferro”,
Bem na estrada das tropas
No planalto de um aterro
Bem no inicio da ladeira
Mas o assunto eu não encerro.

Outros dizem que o cruzeiro
Era na igreja matriz,
Onde nem tinha palmeiras,
Só mato e bicho feliz,
Um casario ao redor
Onde o homem era aprendiz.

A lenda e a história se unem
Para explicar o topônimo
Cruz e Alma tão distintas,
Que até parecem antônimos,
Mas neste caso presente
Cruz e Alma são sinônimos.

Alma é o sopro da vida,
Não é sobrenatural,
É o espírito divino
Do homem, parte imortal,
É o simbolismo bem posto,
Nesta terra sem igual.

A cruz representa a fé,
Símbolo maior de Jesus,
Lembrança pra que sejamos
Amor, esperança e luz,
Razão, consciência e paz,
Destino que nos conduz.

A cruz e as almas se fundem
Formam um nome de verdade,
De uma cidade altaneira,
Emblema da liberdade,
No Recôncavo da Bahia
A promissora cidade.

Sobrenatural aqui
Só a lenda da mãe-do-ouro,
Esfera de estrela em fogo,
Cruzando o céu sem desdouro,
De sete em sete anos,
Trazia riqueza ou agouro.

Contam que ela nascia
Num grotão de arrepiar,
Da serra da Copioba
Cruzava o céu a buscar
Certa luz que brilhava
Na Serra do Aporá.

Se você quer saber mais
sobre o assunto narrado
Procure pessoas mais velhas
Que vão deixa-lo assustado,
E quem já viu a mãe-do-ouro.
Ou quem ficou encantado.

Mas na história real,
Vamos falar de verdades,
De coisas que aconteceram,
De bondades, de maldades,
De belezas, de tristezas,
Alegrias e saudades.

Cariris e Sabujás
Eram os índios presentes.
Tinha padre de batina,
Tinha padre com patente,
Conego Franca, seu nome,
Nosso primeiro intendente.

Que fizeram com os índios?
Ninguém sabe, ninguém viu.
Uns dizem que foram expulsos
Ou mesmo a tribo sumiu,
Por sua própria vontade
Depois que o branco surgiu

O negro aqui era escravo,
Plantava o canavial,
Fumo, mandioca e jaca,
Seu alimento principal
Nas senzalas lamentavam,
Lembrando a terra natal.

À noite, muito cansado,
Com sono e quase sem fala,
Finge não ver o senhor
Lá no fundo da senzala,
Fazendo amor com seu bem,
Mesmo raivoso se cala.

E lá na cama de palha
Da senzala, a brincadeira,
Do amo fazendo amor
Com a escrava faceira,
Surgiu também por aqui
A mistura brasileira.

Não esquece sofrimentos,
Mas luta por seus direitos,
Buscando melhores dias,
Com importância e respeito,
É o povo cruz-almense
Cheio de brio e conceito.

No Engenho de Santa Ana
Francisco de Magalhães
Plantou cana em sua terra
E um novo sol nas manhãs
Erigiu a casa grande
Paro o filho e as cunhãs.

Mas a cidade crescia
Nos dois extremos o oposto
A cruz na estrada de ferro,
A corrente próxima ao posto
Pros lados da estação velha
Na alegria e no desgosto.

Da estação de Dioclécio
Ou se chegava ou partia
Pra aqueles que aqui voltavam
Era sempre uma alegria
E aqueles que iam embora
Pensavam voltar um dia.

Isto foi a introdução
Pras coisas que eu vou contar
Do povo que aqui viveu,
Das construções do lugar,
Do progresso e das vitórias
Desta gente singular.

Muitos que lerem estes versos
Sequer ouviram falar
Das pessoas fascinantes
Que passo a apresentar,
Foram eles os construtores
Deste torrão invulgar.

As primeiras construções
Feitas com muito ardor
Com marcas de mestre Franco,
Excelente construtor,
De Mestre Sala, o italiano,
E de Otens, o inovador.

Enquanto Franco fazia
As casas, e muito bem,
Mestre Sala arquitetava
Construções como ninguém,
E Otens fazia pro fumo
Espaçosos armazéns.

E a casa mais bonita
Era a do Major Alberto
Que eu nem sei quem construiu
Só sei que era abrigo certo
Pra compadres e eleitores
Que vinham de longe ou perto

Não se tinha arranha céu
Nem construção suntuosa,
Só a Escola de Agronomia,
Que surgia majestosa,
Saída das mãos de Sala
De dentro da mata airosa

As praças e ruas antigas
Traçadas com muito esmero
Tinham curvas desnecessárias
Hoje delicioso tempero
Para quem nelas transita
Sem temor ou desespero.

O povo da minha terra
Que passo a enumerar,
Muitos eu nem conheci,
Cito só de ouvir falar,
Mas acreditem, existiram
Não é nenhum bla, bla, bla.

Agora falo de um vulto
Feio, mas de feitos belos,
Era Cícero Nazareno,
Doador de caramelo
Atendia aos moribundos,
Com amor, e com desvelo.

Temístocles da Rocha Passos,
Filho ilustre e de valor,
Vereador, Deputado,
Intendente e Senador,
Conselheiro e Coronel,
Do Império Comendador.

A política, o seu fascínio
Cruz das Almas, seu carinho,
Muito simples e querido,
De estatura, um baixinho,
De alma um grande senhor,
Era assim o Seu Maninho.

O Prefeito Januário
Velame fez a cadeia
Em novecentos e vinte
e dois pra servir de peia,
Mas hoje abriga cultura,
Liberdade ali campeia.

O Major Alberto Passos,
Pessoa muito querida,
Conselheiro experiente,
Pela vida bem vivida,
Hoje em reconhecimento
Virou nome de avenida.

Para se aprender a ler
Não era uma brincadeira,
A palmatória batia
Em mãos ilustres, certeira,
Caso se errasse a lição
Do mestre Mata Pereira.

E o Crisogno Fernandes,
Nome de rua hoje em dia,
Vestia roupa de linho,
Comprada lá na Bahia,
Tinha relógio de ouro
Herdado da sua tia.

Dizem que nesse relógio
Número não existia,
Mas as letras do seu nome
Marcavam as horas do dia,
Mostrava essa coisa rara
Com orgulho e picardia.

Ele era o mais galante,
Um homem fenomenal,
Aromático, ele fumava
De fumaça especial,
Vestia terno engomado,
Linho branco, Diagonal.

Aqui quando se morria
O velório era carpideiro,
Regado à cachaça e doce,
Café forte e candeeiro,
Pra ser depois enterrado
Pelo Cirilo coveiro.

Cirilo era uma figura,
Sempre bêbado e simplório,
Cavava a cova com gosto
Não perdia um só velório,
Comia, bebia cachaça,
Chorava sempre o finório.

Outra figura lembrada
Dono de uma estória bela
Era um livre pensador
O senhor Venâncio Trela,
Cachaceiro inveterado,
Orador sem taramela.

Bêbado, subia ao coreto,
Discursava e criticava
Os políticos da terra
E tanto espicaçava
Que acabava na prisão,
Local onde se acalmava.

Num hospício das estrelas
Cheiroso, Ruzia e Bitela,
Flora Carango, o desejo,
Todos se lembram dela
Luiz do Riachinho, Xoxa,
Capeta, Pirria e Trela.

Pelas coisas que faziam,
Jamais serão esquecidos
Ilustravam a nossa crônica
Por muitos anos seguidos
Seriam eles normais
Ou então loucos varridos?

Porque hoje o que fazemos
Com o nosso mundo atual,
Poluindo e destruindo
De forma irracional,
Eu volto a me perguntar
Será que isso é normal?

Eles apenas dançavam
Cantavam e não destruíam
Felizes com seus trejeitos
Será que loucos seriam?
Ou oradores inflamados
Gritando quando bebiam?

Mestres Augusto e Barroso,
Famosos de profissão,
Augusto, mestre do fumo,
Barroso, mestre em balcão,
De farmácia e drogaria
Salvou vidas de montão.

Para se ir a Bahia,
Que era ir a Salvador,
Se pegava a marinete,
De Baratinha, o condutor,
Nos deixava em Cachoeira
Para pegar o vapor.

Oh! Viagem tão sonhada,
Pra qualquer moça ou rapaz,
No vapor da Cachoeira
Que já não navega mais,
Se ia para a Bahia
Cidade bonita demais.

Também se ia à Bahia
Por trem comum ou mochila,
De manhã cedo em São Felix,
Na estação tinha fila,
Ver a paisagem passando
Rio, monte, sítio e vila.

Mas voltando à nossa terra,
Que tem coisas de valor,
Tem mata de Cazuzinha,
E a fonte do Doutor,
Onde à tardinha eu ia
Para um banho sedutor.

A mata tá menorzinha
A fonte se acabou,
Os mais novos nem conhecem
Ninguém nunca se lembrou
De preservar os banheiros
Só a lembrança ficou.

E as festas que não tem mais?!
Lembro os ranchos de Dadinha,
Bumba Boi de Derrapante,
O teatro de Lozinha,
Batuque de Leonel
E os “Reis” de Maricotinha.

E o carnaval, esperado
Por homem, moça e menina,
Pois tinha baile infantil
Com confete e serpentina,
Meninos com “Rodo” na mão
Pra enfeitiçar a traquina

E o Baile da Prefeitura
Que não entrava um qualquer
Bailes na Lyra e na Euterpe,
Mais animados, até,
Nas ruas, blocos, caretas,
E homem que nem mulher

As “Pranchas” de Teodoro,
Alegorias de Verdival,
Mascarados e mandus,
Tudo muito original
E a alegria das marchinhas
Quarta feira era o final.

Ai, o Padre Deraldo
Passava cinzas na testa
De foliões bem cansados,
E de quem não foi à festa
Num latim arrevesado,
E quarenta dias nos resta…

Pra reconciliar com Deus,
Pra orar e pedir perdão,
Para fazer penitencia,
Jejum e muita oração.
Hoje em dia é diferente
É só farra e arrastão.

Quem não lembra das retretas
Das filarmônicas de então?
A Lyra e a Euterpe
Que até hoje ai estão,
Fazendo vibrar as almas
Com dobrados e emoção.

A Lyra de Seu Sizino
De Batuta afinada,
Silvestre Mendes na Euterpe,
De batuta premiada,
As batutas eram espadas
De uma guerra imaginada.

Quantas vezes eu ouvi
Esta guerra no coreto,
Levavam horas tocando
Um desafio em dueto,
E o povo ali, delirando,
Velho, novo, branco ou preto.

Que orquestra maravilhosa
Se eu pudesse criaria
Cabo Inocêncio na viola
Miro e a saxofonia,
O Violão de Gordilho
E Tonho na bateria.

O som do banjo de Pedro,
O trompete de Florzino,
Brazilinho no cavaco,
João Carango, bombardino,
Vivaldo no pé-de-bode,
Que lembrava um violino.

Martiniano de Melo
E seu fole pregueado,
Tiago tocando trompa,
Doré muito ritmado,
Com seu pandeiro estiloso,
Tudo muito combinado.

No mês de Setembro inteiro
Os carurus festejados
De Souza e Dona Marocas
Eram os mais disputados,
Rezava-se para os santinhos
Queridos e respeitados

E as festas de São João
Hoje tão modificadas,
Em cada casa, um forró,
Milho canjica e cocada
Llicor de maracujá
Para animar a moçada

Veio depois Jenipapo,
Mas servia para alegrar
E hoje virou o primeiro
No gostinho popular,
Deixando todos afoitos
Pra verem espadas rolar.

Zeca Sampaio tocava
As espadas amarradas
No tronco dos oitizeiros
Bem em cima das calçadas,
Não feria nem queimava
Em surpresas encantadas.

Aqui haviam escritores
De lembrança bem saudosa:
Jacinta Passos, guerreira,
Cordel de Conde Barbosa,
André Peixoto, inspirado,
Sismil de rima gostosa.

E Galeno d’Avelírio,
Que a sua terra cantava,
Cantava o amor e amadas,
Nos seu cantar delirava,
Amores nunca sonhados
E a nossa alma enlevava.

Dois Chicos eu conheci,
Chico Boi e o do Rolete,
Um artesão de sapato
O outro com voz de falsete
Mercava roletes de cana
Que fazia o nosso deleite.

Julinho e Cula também
Calçavam os pés da gente
Com solado de pneu,
Seus sapatos, de repente,
Por nós os mais odiados
Mereciam até patente.

Hoje Walmart é mercado
E era a Suerdieck de então,
Indústria muito importante
De charuto feito à mão
Por mais de cem operárias,
Oh! Quanta recordação.

Folhas curadas, marrons
Do lavrador a canseira
Eram bem esculturadas
Por mãos morenas, ligeiras
Viravam charutos ninados
Nos colos das charuteiras.

Charutos cruzavam os mares,
Partindo de Salvador,
Agradava bocas ricas
De reis, plebeus ou doutor,
Padres, ricos, sábios, nobres,
Em terras do exterior.

Aqui tinha dois cinemas,
Coisas que hoje não tem.
Cine Glória que virou Ópera
Tinha o Popular também
Lá fabriquei fantasias,
Viajei em sonhos de além.

Guardo até hoje um pedaço
Da celuloide cortada,
Com seus furinhos do lado
Mostrando a curva adorada
Dos belos seios de Marylin
Monroe, a musa sonhada.

Hoje o mundo tá inundado
De telefone celular,
Nos tempos de antigamente
Para se telefonar
Ou era Bila ou Litinha
Que fazia a gente falar

Eram duas cabines com vidro
E um telefone a chiar,
Zumbidos, roncos, estáticas,
Difícil comunicar
Com alguém do outro lado
Que não podia escutar.

A cidade viu surgir
Seu primeiro arranha céu
Dois pavimentos modestos,
Foi motivo de escarcéu,
A audácia de Seu Zé Curi,
Um vendedor de chapéu.

Novenas da padroeira
Eram tempos de namoro,
Olhar furtivo era o gozo,
Alegria, paixão e choro,
E se a escada deixasse
O namoro era no coro.

Oradores inflamados,
Zé Rocha e Aderbal Pereira,
O caminhão de Irineu
Era o ônibus de carreira
E o Viriato e a tesoura
Aparavam a cabeleira.

Nossa feira era na praça
Que hoje é fonte luminosa,
Tudo vendido no chão,
Farinha, carne, “penosa”,
Milho amendoim, feijão,
Verdura e fruta gostosa.

Da feira da minha infância
Que eu ia toda semana,
Tóim vesgo e os cavalos
Feitos de flecha de cana,
E Colher de Pau mercadeando
machucador de imburana.

Ao vate Luciano Passos,
Que nesta terra vivia,
Eu dedico este trabalho
Sobre a sua Estrela Guia,
Que é também Lençol Perpétuo
Na sua última moradia.

Em dois livros ele nos conta
Estórias desta cidade,
Procurem pra ler que é bom,
Com metáforas sem idade.
Vai do ontem ao amanhã
Com magia e com saudade

Se acham que esqueci
De algum vulto famoso
Mande seu nome pra mim
Que escreverei, sem repouso,
A sua estória contada
Em outro livro precioso

Este é o primeiro livro
Deste longo itinerário,
Que é contar a história
Desta terra, um breviário,
No próximo ano, farei
Um outro livro lendário

Trazendo histórias recentes,
Contando fatos reais,
Ainda bem na lembrança
De avós filhos e pais,
Pra que fiquem registradas
Também coisas atuais.

Que num futuro, quem sabe,
Sejam lembranças totais
De um tempo, hoje, recente
Que não existirá mais,
Como estes que eu relato
Neste livrinho fugaz.

Autor: Hermes Peixoto (Agá Pê)

(FONTE: http://www.recantodasletras.com.br/cordel/3841776)